domingo, 30 de setembro de 2007

AS TORMENTAS, FLORBELA ESPANCA



Poetisa portuguesa, natural de Vila Viçosa (Alentejo). Nasceu filha ilegítima de João Maria Espanca e de Antónia da Conceição Lobo, criada de servir (como se dizia na época), que morreu com apenas 36 anos, «de uma doença que ninguém entendeu», mas que veio designada na certidão de óbito como nevrose. Registada como filha de pai incógnito, foi todavia educada pelo pai e pela madrasta, Mariana Espanca, em Vila Viçosa, tal como seu irmão de sangue, Apeles Espanca, nascido em 1897 e registado da mesma maneira. Note-se como curiosidade que o pai, que sempre a acompanhou, só 19 anos após a morte da poetisa, por altura da inauguração do seu busto, em Évora, e por insistência de um grupo de florbelianos, a perfilhou.
Estudou no liceu de Évora, mas só depois do seu casamento (1913) com Alberto Moutinho concluiu, em 1917, a secção de Letras do Curso dos Liceus. Em Outubro desse mesmo ano matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que passou a frequentar. Na capital, contactou com outros poetas da época e com o grupo de mulheres escritoras que então procurava impor-se. Colaborou em jornais e revistas, entre os quais o Portugal Feminino. Em 1919, quando frequentava o terceiro ano de Direito, publicou a sua primeira obra poética, Livro de Mágoas. Em 1921, divorciou-se de Alberto Moutinho, de quem vivia separada havia alguns anos, e voltou a casar, no Porto, com o oficial de artilharia António Guimarães. Nesse ano também o seu pai se divorciou, para casar, no ano seguinte, com Henriqueta Almeida. Em 1923, publicou o Livro de Sóror Saudade. Em 1925, Florbela casou-se, pela terceira vez, com o médico Mário Laje, em Matosinhos.
Os casamentos falhados, assim como as desilusões amorosas, em geral, e a morte do irmão, Apeles Espanca (a quem Florbela estava ligada por fortes laços afectivos), num acidente com o avião que tripulava sobre o rio Tejo, em 1927, marcaram profundamente a sua vida e obra. Em Dezembro de 1930, agravados os problemas de saúde, sobretudo de ordem psicológica, Florbela morreu em Matosinhos, tendo sido apresentada como causa da morte, oficialmente, um «edema pulmonar».
Postumamente foram publicadas as obras Charneca em Flor (1930), Cartas de Florbela Espanca, por Guido Battelli (1930), Juvenília (1930), As Marcas do Destino (1931, contos), Cartas de Florbela Espanca, por Azinhal Botelho e José Emídio Amaro (1949) e Diário do Último Ano Seguido De Um Poema Sem Título, com prefácio de Natália Correia (1981). O livro de contos Dominó Preto ou Dominó Negro, várias vezes anunciado (1931, 1967), seria publicado em 1982.

A poesia de Florbela caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito. A veemência passional da sua linguagem, marcadamente pessoal, centrada nas suas próprias frustrações e anseios, é de um sensualismo muitas vezes erótico. Simultaneamente, a paisagem da charneca alentejana está presente em muitas das suas imagens e poemas, transbordando a convulsão interior da poetisa para a natureza.
Florbela Espanca não se ligou claramente a qualquer movimento literário. Está mais perto do neo-romantismo e de certos poetas de fim-de-século, portugueses e estrangeiros, que da revolução dos modernistas, a que foi alheia. Pelo carácter confessional, sentimental, da sua poesia, segue a linha de António Nobre, facto reconhecido pela poetisa. Por outro lado, a técnica do soneto, que a celebrizou, é, sobretudo, influência de Antero de Quental e, mais longinquamente, de Camões.

Poetisa de excessos, cultivou exacerbadamente a paixão, com voz marcadamente feminina (em que alguns críticos encontram dom-joanismo no feminino). A sua poesia, mesmo pecando por vezes por algum convencionalismo, tem suscitado interesse contínuo de leitores e investigadores. É tida como a grande figura feminina das primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.

fonte:http://www.astormentas.com/din/biografia.asp?autor=Florbela+Espanca

FLORBELA ESPANCA


Biografia
Mesmo antes de seu nascimento, a vida de Florbela Espanca já estava marcada pelo inesperado, pelo dramático, pelo incomum.

Seu pai, João Maria Espanca era casado com Maria Toscano. Como a mesma não pôde dar filhos ao marido, João Maria se valeu de uma antiga regra medieval, que diz que quando de um casamento não houver filhos, o marido tem o direito de ter os mesmos com outra mulher de sua escolha. Assim, no dia 8 de dezembro de 1894 nasce Flor Bela Lobo, filha de Antónia da Conceição Lobo. João Maria ainda teve mais um filho com Antónia, Apeles. Mais tarde, Antónia abandona João Maria e os filhos passam a conviver com o pai e sua esposa, que os adotam.

Florbela entra para o curso primário em 1899, passando a assinar Flor d’Alma da Conceição Espanca. O pai de Florbela foi em 1900 um dos introdutores do cinematógrafo em Portugal. A mesma paixão pela fotografia o levará a abrir um estúdio em Évora, despertando na filha a mesma paixão e tomando-a como modelo favorita, razão pela qual a iconografia de Florbela, principalmente feita pelo pai, é bastante extensa.

Em 1903, aos sete anos, faz seu primeiro poema, A Vida e a Morte. Desde o início é muito clara sua precocidade e preferência a temas mais escusos e melancólicos.

Em 1908 Antônia Conceição, mãe de Florbela, falece. Florbela então ingressa no Liceu de Évora, onde permanece até 1912, fazendo com que a família se desloque para essa cidade. Foi uma das primeiras mulheres a ingressar no curso secundário, fato que não era visto com bons olhos pela sociedade e pelos professores do Liceu. No ano seguinte casa-se no dia de seus 19 anos com Alberto Moutinho, colega de estudos.

O casal mora em Redondo até 1915, quando regressa à Évora devido a dificuldades financeiras. Eles passam a morar na casa de João Maria Espanca. Sob o olhar complacente de Florbela ele convive abertamente com uma empregada, divorciando-se da esposa em 1921 para casar-se com Henriqueta de Almeida, a então empregada.

Voltando a Redondo em 1916, Florbela reúne uma seleção de sua produção poética de 1915 e inaugura o projeto Trocando Olhares, coletânea de 88 poemas e três contos. O caderno que deu origem ao projeto encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, contendo uma profusão de poemas, rabiscos e anotações que seriam mais tarde ponto de partida para duas antologias, onde os poemas já devidamente esclarecidos e emendados comporão o Livro de Mágoas e o Livro de Soror Saudade.

Regressando a Évora em 1917 a poetisa completa o 11º ano do Curso Complementar de Letras, e logo após ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Após um aborto involuntário, se muda para Quelfes, onde apresenta os primeiros sinais sérios de neurose. Seu casamento se desfaz pouco depois.

Em junho de 1919 sai o Livro de Mágoas, que apesar da poetisa não ser tão famosa faz bastante sucesso, esgotando-se rapidamente. No mesmo ano passa a viver com Antônio Guimarães, casando-se com ele em 1921. Logo depois Florbela passa a trabalhar em um novo projeto que a princípio se chamaria Livro do Nosso Amor ou Claustro de Quimeras. Por fim, torna-se o Livro de Soror Saudade, publicado em janeiro de 1923.

Após mais um aborto separa-se pela segunda vez, o que faz com que sua família deixe de falar com ela. Essa situação a abalou muito. O ex-marido abriu mais tarde em Lisboa uma agência, “Recortes”, que enviava para os respectivos autores qualquer nota ou artigo sobre ele. O espólio pessoal de Antônio Guimarães reúne o mais abundante material que foi publicado sobre Florbela, desde 1945 até 1981, ano do falecimento do ex-marido. Ao todo são 133 recortes.

Em 1925 Florbela casa-se com Mário Lage no civil e no religioso e passa a morar com ele, inicialmente em Esmoriz e depois na casa dos pais de Lage em Matosinhos, no Porto.

Passa a colaborar no D. Nuno em Vila Viçosa, no ano de 1927, com os poemas que comporão o Charneca em Flor. Em carta ao diretor do D. Nuno fala da conclusão de Charneca em Flor, e fala também da preparação de um livro de contos, provavelmente O Dominó Preto.

No mesmo ano Apeles, irmão de Florbela, falece em um trágico acidente, fato esse que abalou demais a poetisa. Ela aferra-se à produção de As Máscaras do Destino, dedicando ao irmão. Mas então Florbela nunca mais será a mesma, sua doença se agrava bastante após o ocorrido.

Começa a escrever seu Diário de Último Ano em 1930. Passa a colaborar nas revistas Portugal Feminino e Civilização, trava também conhecimento com Guido Batelli, que se oferece para publicar Charneca em Flor. Florbela então revê em Matosinhos as provas do livro, depois de tentar o suicídio, período em que a neurose se agrava e é diagnosticado um edema pulmonar.

Em dois de dezembro de 1930, Florbela encerra seu Diário do Último Ano com a seguinte frase: “… e não haver gestos novos nem palavras novas.” Às duas horas do dia 8 de dezembro – no dia do seu aniversário Florbela D’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos, ingerindo dois frascos de Veronal. Algumas décadas depois seus restos mortais são transportados para Vila Viçosa, “… a terra alentejana a que entranhadamente quero”.

FONTES:
http://www.instituto-camoes.pt/cvc/projtelecolab/tintalusa/
numerodois/tl3.html

http://purl.pt/272/2/index.html

http://www.torre.xrs.net/

Coleção “A Obra Prima de Cada Autor” – Editora Martin Claret

domingo, 23 de setembro de 2007

Poesia de Lao Tsé

Só temos consciência do belo,
Quando conhecemos o feio.
Só temos consciência do bom,
Quando conhecemos o mau.
Porquanto, o Ser e o Existir,
Se engendram mutuamente.
O fácil e o difícil se completam.
O grande e o pequeno são complementares.

O alto e o baixo formam um todo.
O som e o silêncio formam a harmonia.
O passado e o futuro geram o tempo.

Eis porque o sábio age,
Pelo não-agir.
E ensina sem falar.
Aceita tudo que lhe acontece.
Produz tudo e não fica com nada.

O sábio tudo realiza - e nada considera seu.
Tudo faz - e não se apega à sua obra.
Não se prende aos frutos da sua atividade.

Termina a sua obra,
E está sempre no princípio.
E por isso a sua obra prospera.

Lao Tsé
in Tao Te King

SOBRE FRITZ PERLS E “EGO, FOME E AGRESSÃO”


"Meu primeiro contato com Ego, fome e agressão ocorreu durante minha formação em Gestalt-terapia, no início dos anos 80, por intermédio de uma grande e sábia amiga, Gercy Campos, com quem aprendi a essência de muito do que aplico até hoje em minha prática fenomenológico-existencial. Ela me forneceu a edição em espanhol do livro, o que me deu grande interesse de buscar entender as origens da abordagem gestáltica. Posteriormente, consegui acesso à edição norte-americana, que me suscitou a idéia de traduzi-la para o português – seria meu trabalho de final de curso – já que a obra não existia em nossa língua. Isto favoreceria o conhecimento de muitos que não dominam o inglês e o espanhol. Essa empreitada começou nessa época e é fruto de minhas preocupações com a consistência teórico-epistemológica da Gestalt-terapia.
A publicação de Ego, fome e agressão no Brasil, além de marcar o centenário de Frederick (Fritz) S. Perls (1893-1970), fundamenta-se nas circunstâncias históricas e nas influências teóricas que levaram o criador da Gestalt-terapia à elaboração de sua primeira obra.
Em 1920, aos 27 anos, Fritz graduou-se em medicina, interessando-se por neuropsiquiatria. Nessa época, se identifica com o movimento da contracultura, integra-se à classe boêmia de Berlim e ao grupo “Bauhaus”, de artistas e políticos dissidentes. Nesse meio, tem seu primeiro contato com a filosofia através de Sigmund Friedlaender, autor de Creative indifference, que muito o influenciou. Em sua autobiografia (In and Out the Garbage Pail1), Perls assim se refere a Friedlaender:
“Meu primeiro encontro filosófico com o nada foi o nada em forma de zero. Descobri-o sob o nome de indiferença criativa, através de Sigmund Friedlaender.
Reconheço três gurus na minha vida. O primeiro foi S. Friedlaender, que se autodenominava neokantiano. Com ele aprendi o significado do equilíbrio, do centro-zero dos opostos. O segundo é Selig, nosso escultor e arquiteto do Instituto Esalen.
Meu último guru foi Mitzie, uma linda gata branca. Ela me ensinou a sabedoria do animal“ (p. 71).
“Seu trabalho filosófico Creative indifference (Indiferença Criativa) teve tremendo impacto sobre mim. Como personalidade, ele foi o primeiro homem em cuja presença me senti humilde, cheio de veneração. Não havia lugar para a minha arrogância crônica” (p. 95).
“... Friedlaender trouxe um modo simples de orientação primária. Qualquer coisa se diferencia em opostos. Se somos capturados por uma dessas forças opostas, estamos numa cilada, ou pelo menos, desequilibrados. Se ficamos no nada do centro-zero, estamos equilibrados e temos perspectiva.
Mais tarde percebi que este é o equivalente ocidental do ensinamento de Lao-Tsé” (p. 96).
Em 1926, aos 33 anos, Fritz é analisado por Karen Horney e se transfere para Frankfurt, por sugestão da psicanalista, para continuar sua formação psicanalítica. Ali, trabalha com Kurt Goldstein, no Instituto de Soldados Portadores de Lesões Cerebrais, sob a visão da psicologia da gestalt, vindo a compreender que a interferência em um elemento não afeta apenas esse elemento isoladamente, mas toda a totalidade. Sente-se também atraído pelos existencialistas (Buber, Tillich e outros). Num seminário de Goldstein, conhece Lore (Laura) Posner, com quem se casaria, em 1929.
Podemos perceber a ligação de Fritz Perls com a psicanálise, ao lado de influências outras, como a psicologia da gestalt, a teoria organísmica e o existencialismo. Sua formação psicanalítica prossegue até 1932, entre Frankfurt, Viena e Berlim. Em 1928, é analisado por Reich, de quem assimila os ensinamentos sobre a “couraça caracterológica”. Desde a ascensão de Hitler, em 1931, Fritz vinha trabalhando junto aos movimentos de resistência ao nazismo. Em abril de 1933, é obrigado a fugir para a Holanda, onde encontra o psicanalista Karl Landauer, continuando sua capacitação psicanalítica. Por indicação do biógrafo de Freud, Ernest Jones, muda-se para a África do Sul, onde funda o “Instituto Sul-Africano de Psicanálise”, em 1935.
Em 1936, acontece o “Congresso Internacional de Psicanálise”, na Tchecoslováquia. A expectativa de Fritz é grande e busca contribuir com a teoria psicanalítica proferindo uma palestra sobre “resistências orais”. A frustração também é grande: a palestra é severamente criticada, pois todas as resistências eram consideradas anais; o contato com Freud é breve e frio, e Reich mostra-se esquivo e mal-humorado, tendo dificuldade de reconhecê-lo. As repercussões sobre Perls são inegáveis: é a partir dessa época que Fritz se afasta, cada vez mais, da psicanálise. Apesar de já ter iniciado um movimento de flexibilização de seu estilo psicoterápico, tornando-o mais experiencial e aberto (devido também à distância e ao isolamento cultural vivido na África do Sul), Perls jamais se libertou de sua ambigüidade (admiração/ressentimento) com Freud e a psicanálise.
Assim, Fritz amplia o trabalho do “Congresso”, inclui elementos úteis de sua prática com Reich e do pensamento existencial, e, em 1940, conclui o manuscrito de Ego, hunger and aggression, que, originalmente, tinha como subtítulo A revision of Freud’s theory and method (suprimido na edição norte-americana, de 1969), o que demonstra que, apesar da posição revisionista, Perls ainda se mantinha inserto na perspectiva psicanalítica. O livro é publicado em 1942, em Durban (África do Sul); em 1947, na Inglaterra; e em 1969, nos EUA, quando esse subtítulo é retirado. A vinculação de Fritz à psicanálise, entretanto, durou pelo menos 15 anos, desde os anos 20.
Ao se transferir para os EUA, em 1946, e, particularmente nos anos 60, Fritz se preocupou principalmente em divulgar a Gestalt-terapia. Com a sua morte, em 1970, a tarefa de retomar a fundamentação epistemológica e teórica de sua criação passou a ser de seus seguidores. A publicação de Ego, fome e agressão em português é, agora, mais um passo decisivo no crescente papel que os gestalt-terapeutas brasileiros vêm desempenhando no desenvolvimento dessa fundamentação.

* * *

Ego, fome e agressão divide-se em três partes. Na Parte I, “Holismo e psicanálise”, em 13 capítulos, Perls adota um enfoque holístico-semântico. Critica a psicanálise por sua acentuação da importância do inconsciente e do instinto sexual, do passado e da causalidade, das associações, da transferência e das repressões, bem como por subestimar ou depreciar as funções do ego e do instinto de fome (que seria mais básico do que o sexual), do presente e da intencionalidade, da concentração, das reações espontâneas e da retroflexão (questões posteriormente enfatizadas pela Gestalt-terapia). Portanto, Fritz evita a utilização de termos psicanalíticos que considera dúbios, como “libido” e “instinto de morte”. É nesta Parte I que Perls discute os pontos de ligação e de diferenciação entre a psicanálise e a futura Gestalt-terapia.
No capítulo I, “Pensamento diferencial”, Fritz descreve seu contato com as obras de Freud e com a filosofia da “indiferença criativa” de S. Friedlaender. Quanto a esta última, afirma em sua autobiografia (ver nota de rodapé anterior): “para mim a orientação da indiferença criativa é lúcida. Não tenho nada a acrescentar ao primeiro capítulo de Ego, Hunger and Aggression”. Destaca a afirmação de Freud de que o homem criou a filosofia, a cultura e a religião e a necessidade de uma análise de nossa existência a partir do homem e não de agentes externos: as descobertas de Freud confirmaram o postulado da ciência atual acerca da interdependência de observador e fatos observados, e Freud criou o primeiro sistema de uma psicologia genuinamente estrutural. Entretanto, Fritz acredita que a psicanálise apresenta algumas incompletudes e defeitos2: o tratamento isolacionista dos fatos psíquicos do organismo; o emprego da psicologia linear de associação; e o descuido com o fenômeno da diferenciação. Assim, nesta revisão da psicanálise, Fritz pretende substituir o conceito psicológico por um conceito organísmico e a psicologia da associação pela psicologia da gestalt. Afirma que o pensamento diferencial, baseado na “indiferença criativa”, de S. Friedlaender, apresenta semelhanças com a teoria dialética, sem suas implicações metafísicas, distinguindo a dialética como conceito filosófico das regras úteis aplicadas pela filosofia de Hegel e de Marx. Fritz refere-se ao trabalho de Kurt Goldstein, que demonstrou a regressão da personalidade em soldados com lesões cerebrais. Perls afirma a diferença do pensamento diferencial em relação à lei de causa e efeito, considerando que a maior parte das pessoas aceita como respostas satisfatórias a seus “porquês” o uso da racionalização, justificativa, concordância, desculpas, identidade e objetivos, propondo a descrição – perguntar “como” - como método fenomenológico, mais adequado à sua resolução. Este importante capítulo é encerrado com a afirmação de que a ciência tem demonstrado a existência de processos unificadores (¶) e desunificadores (≠), que atuam simultaneamente, sendo freqüentemente difícil isolar os opostos. Fritz elabora uma explicação da distribuição das duas funções opostas nas relações humanas.
Nos quatro capítulos seguintes (Capítulo II, “Abordagem psicológica”; Capítulo III, “O organismo e seu equilíbrio”; Capítulo IV, “Realidade”; e Capítulo V, “A resposta do organismo”), Fritz aplica a perspectiva holístico-semântica (ou pensamento diferencial) à compreensão do funcionamento psicológico do organismo, criticando as perspectivas isolacionista-mecanicista e paralelista psicofísica, e enfatizando a perspectiva holística (ou teoria do duplo aspecto) para explicar a totalidade corpo-alma-mente, de forma muito próxima à do materialismo dialético. Discute a percepção da realidade a partir de necessidades organísmicas, que geram interesses específicos (realidade subjetiva), tratando do fenômeno figura-fundo e da relação entre nossos interesses e nossas respostas (contato, seletividade e evitação), do ciclo de interdependência de organismo e ambiente, da auto-regulação organísmica e de suas perturbações e outras formas de ajustamento.
Nos Capítulos VI (“Defesa”), VII (“Bom e mau”), VIII (“Neurose”) e IX (“Reorganização organísmica”), Perls diferencia agressão e aniquilação, discutindo as várias formas de defesa (evitação). Analisa o comportamento moral humano, destacando a importância da frustração temporária em nossa educação; trata dos meios de evitação do neurótico, classificando-os em modos de subtração, de adição, ou mudanças e distorções. Baseado na perspectiva holístico-semântica, sugere modificações na técnica e no pensamento psicanalíticos, incluindo questões acerca do psiquismo e do corpo, através da análise e da síntese dialéticas, particularmente no que se refere à ansiedade.
Os quatro últimos capítulos desta Parte I, os Capítulos X (“Psicanálise clássica”), XI (“Tempo”), XII (“Passado e futuro”) e XIII (“Passado e presente”), são dedicados ao desenvolvimento de críticas sistemáticas à psicanálise, e Fritz destaca a importância da inclusão da análise do instinto de fome e das funções egóicas. Esclarece as relações entre passado, presente e futuro e justifica sua famosa ênfase ao aqui-e-agora.
Na Parte II, “Metabolismo mental”, Fritz esboça uma teoria da personalidade a partir da psicanálise, da psicologia da gestalt, da teoria organísmica de Kurt Goldstein, da perspectiva holística de Smuts e de outras influências. Discute a assimilação mental como correlato da assimilação alimentar e analisa psicologicamente o caráter paranóide (13 capítulos).
No Capítulo I (“Instinto de fome”), Fritz esboça uma teoria do desenvolvimento alimentar e dental como correlato do desenvolvimento mental, por meio de seus estágios correspondentes: pré-natal, pré-dental (amamentação), incisivo (mordida dependente) e molar (mordida e mastigação). Aqui, já anuncia os distúrbios de contato que podem ocorrer nestas fases.
O Capítulo II, “Resistências”, é, provavelmente, desenvolvido a partir do trabalho apresentado em 1936, no Congresso Internacional de Psicanálise. Assim, Perls disserta sobre as resistências, particularmente as orais e, em especial, acerca do nojo e da sua repressão como uma resistência à resistência. Discute várias formas de parasitismo, tratando da agressão como uma função do instinto de fome.
Nos Capítulos III (“Retroflexão e civilização”), IV (“Alimento mental”) e V (“Introjeção”), Perls discute o papel fundamental da retroflexão no desenvolvimento de nossa civilização judaico-cristã, as conseqüências das perturbações da assimilação mental e as variações peculiares ao modo original de contato, a introjeção, e suas repercussões psicopatológicas.
Nos três capítulos seguintes, Capítulo VI (“O complexo de fantoche”), VII (“O ego como uma função do organismo”) e VIII (“A cisão da personalidade”), Fritz propõe e discute um tipo de resistência oral, baseado na confluência do bebê que mantém o indivíduo numa atitude infantil, dependente e dissimulada, tratando também de noções básicas para a Gestalt-terapia, como os processos de identificação e alienação, a concepção de fronteira e os distúrbios de contato na confluência e na retroflexão.
Os cinco últimos capítulos da Parte II são relacionados entre si: no Capítulo IX (“Resistências sensomotoras”), Perls critica a perspectiva psicanalítica acerca das resistências, fazendo considerações e propostas quanto ao trabalho com o embaraço, a vergonha, o nojo, a escotomização, a hiperestesia, a dessensitivação etc., sugerindo a descrição fenomenológica como método básico para a sua solução. No Capítulo X (“Projeção”), confronta as polaridades opostas do caráter paranóide, projeção e expressão, discutindo não apenas os casos de projeções sobre o meio, mas também as dirigidas para partes da personalidade, como na culpa, por exemplo. Propõe a existência de um fenômeno patológico do caráter paranóico, que consistiria, na verdade, num pseudometabolismo, composto de confluências, introjeções e projeções (Capítulo XI, “O pseudometabolismo do caráter paranóico”). Continuando neste tema, Fritz discute a ocorrência de um círculo vicioso de introjeção-projeção, agravado nas neuroses obsessivas (Capítulo XII, “Complexo de megalomania-proscrição”). Finalmente, no último capítulo desta Parte II (Capítulo XIII, “Resistências emocionais”), Perls classifica as emoções em auto e aloplásticas, completas e incompletas, unificadoras e desunificadoras, positivas e negativas, aprofundando-se sobre as resistências às emoções, principalmente o ressentimento e os chamados “traidores do organismo”: a vergonha, o embaraço, o nojo, a autoconsciência de si (ou timidez) e o medo.
A Parte III tem a denominação original da Gestalt-terapia, “Terapia de concentração”, e abrange as propostas técnicas de Fritz, baseadas na substituição do método psicanalítico de associações livres por aquele que considera o antídoto para a evitação: a concentração (16 capítulos). O Capítulo I, “A técnica”, discute a evolução da técnica de concentração, a partir da psicanálise, definindo como meta a recuperação da “awareness”. O Capítulo II (“Concentração e neurastenia”) define concentração e faz sugestões de aplicação técnica à neurastenia3. O Capítulo III (“Concentração no ato de comer”) trata dos hábitos alimentares; o Capítulo IV (“Visualização”) discute percepção visual, imagens, devaneios e fantasias. O Capítulo V (“Senso de realidade”) trata da evitação do “estar plenamente presente”, enquanto o Capítulo VI (“Silêncio interior”) analisa a linguagem, a “intuição” e a “escuta” interior. No Capítulo VII (“Primeira pessoa do singular”), Perls discorre sobre a “despersonalização” e seu antídoto, a identificação. O Capítulo VIII (“Desfazendo retroflexões”) é dedicado à comparação da retroflexão com outras inibições (repressão, introjeção e projeção) e à discussão sobre seu antídoto, a agressão focalizada. O Capítulo IX (“Concentração corporal”) propõe exercícios para vários sintomas e distúrbios somáticos, enquanto o Capítulo X (“A assimilação de projeções”) trata da projeção nas neuroses e nos sonhos, e de seus antídotos (“awareness”, identificação e assimilação). O Capítulo XI (“Desfazendo uma negação [constipação]”) desvela os mecanismos negativos da “prisão de ventre”, e o Capítulo XII (“Consciência constrangida de si mesmo”) diferencia timidez e “awareness”. No Capítulo XIII, “O significado da insônia”, Fritz analisa a dificuldade de adormecer como “um sintoma de uma política de saúde de longo alcance do organismo a serviço do holismo” (p. 258); o tartamudeio é discutido como uma interrupção ou auto-expressão inadequada, no Capítulo XIV, “Gagueira”. No Capítulo XV, “O estado de ansiedade”, Perls propõe a concentração na caixa torácica para a resolução deste problema tão comum. Finalmente, no Capítulo XVI (“Dr. Jekill e Mr. Hyde”), o criador da Gestalt-terapia fecha Ego, fome e agressão com o tema da concentração e do “ganho final” dos exercícios propostos: o resgate do fluxo natural da formação figura-fundo.

* * *

A importância de Ego, fome e agressão vai além da obra em si. Representa, ao mesmo tempo, o ponto de ligação e de diferenciação entre psicanálise e “terapia de concentração”, a futura Gestalt-terapia. Até meados dos anos 40, Fritz Perls ainda se incluía no escopo teórico da psicanálise. Portanto, Ego, fome e agressão constitui a fronteira de contato entre estes dois referenciais.
A noção de “fronteira de contato” significa um limite, uma separação entre o antigo e o novo, mas também é um espaço de contato e de diálogo. Para muitos de nós, gestaltistas, a psicanálise é ainda e apenas uma perspectiva a ser criticada e rejeitada; agimos, muitas vezes, emocionalmente ressentidos, como o próprio Fritz o fez, como se a psicanálise não tivesse nada a nos oferecer. Creio ter chegado o momento de rever nossas posições. O conhecimento científico não é único e acabado, e é um idealismo inútil pretender que qualquer filosofia, psicologia, ciência ou produção humana dê conta, isoladamente, de toda uma realidade. Este é um dado que requer humildade científica e humana.
Meu intuito, ao apresentar e traduzir Ego, fome e agressão, não se deveu apenas à pretensão de destacar as considerações desenvolvidas pelo criador da Gestalt-terapia, mas ao reconhecimento da necessidade de seu resgate histórico e epistemológico, bem como de uma abertura de perspectivas de desenvolvimento para suas propostas. Nesse sentido, não deixa de ser significativo que as obras de Perls mais consistentes teoricamente, Ego, fome e agressão e “Gestalt-terapia” tenham sido as últimas a serem publicadas em português.
Acredito que o resgate de Ego, fome e agressão venha a contribuir, e muito, com a retomada de um diálogo entre nós, com nossas origens e com novas possibilidades a construir. Fritz Perls, com Ego, fome e agressão, abriu muitas trilhas: algumas ele desenvolveu por meio de livros e de práticas posteriores; outras apenas esboçou o caminho, sem percorrê-lo; outras mais foram abandonadas ou rejeitadas ao longo do percurso; finalmente, algumas trilhas não foram mesmo tocadas. Este é um trabalho que, hoje, compete a nós: retomar, rever, modificar, acrescentar, criar e desenvolver as trilhas do criador da Gestalt-terapia. Boa leitura e bom trabalho a nós!"

Georges Daniel Janja Bloc Boris

Fortaleza, jul./ago. de 1993

(revisto em março de 2002)

Sonho em Gestalt – Terapia Breve:


Jônatas Dias Teixeira

Artigo apresentado à Universidade Paulista como requisito parcial à conclusão do Estágio Supervisionado I, na Área de Atendimento Breve a Adulto e Adolescente. Sob a supervisão da Prof. Ms. Maria Aparecida Silva Dias Vieira. Goiânia, Junho,2005

Resumo

Este artigo teve como objetivo explicitar a importância do trabalho com os sonhos em Gestalt-Terapia Breve, tendo Perls (1966) como o precursor dessa área de estudo. Enfatizando como é possível trazer os possíveis conflitos, interiormente vivenciados pela cliente, ao aqui e agora, à realidade atual. Para que assim possa entrar em contato com esses conflitos e dar significado as diferentes partes desses sonhos que, segundo Perls, seriam partes do próprio eu da pessoa. Fez-se isso através da exposição e subseqüente dramatização do sonho de uma jovem, que se submeteu à psicoterapia breve durante dois meses, sendo duas horas semanais. A cliente obteve reflexões muito proveitosas a respeito de sua vida atual e de como agir futuramente. Pôs-se ênfase também na carência não só de material disponível como de práticas, muitas das vezes não publicadas, o que resulta em uma certa escassez de bibliografias baseadas em trabalhos recentes sobre este tema.



Palavras – Chave: Gestalt-Terapia; Dramatização do sonho; Escassez de publicação sobre sonhos.

Abstract

This article have as objective shows the importance of the work with dreams in Gestalt-Therapy Brief, having Perls (1966) as the pioneer of this study’s area. Emphasizing how is possible bring the possible conflicts, inside living by the client, here and now, in the current reality. To therefore could enter in contact with theses conflicts and give signification to the different parts of these dreams that, according Perls would be parts of the own I of the person.Made that through the exposition and subsequence dramatization of girl’s dream, which submitted to psychotherapy brief during two months, being two hours on week.The client has reflections very benefits about her current life and how acts in future. Have emphasis also in lack not only of material available of practices, a lot of times not published, what result in a kind of bibliography’s shortage based in recently works about this subject.



Key words: Gestalt-Therapy; Dream’s dramatization; Shortage publication about dreams.



Introdução

O movimento Gestáltico surgiu na Alemanha, por volta de 1910 a 1912. Max Wertheimer (1910), um alemão, foi um dos pioneiros na elaboração dos conceitos da Psicologia Gestáltica. Estes conceitos foram, posteriormente, ampliados por Kurt Koffka e Wolfgang Köhler, que foram os sujeitos de experimentos da Gestalt.O ponto de partida da Gestalt foi o estudo da percepção, mais especificamente o estudo da percepção visual do movimento.

A escola de psicologia que desenvolveu estas observações é chamada Escola Gestáltica. Gestalt é uma palavra alemã para a qual não há tradução equivalente em outras línguas. Uma Gestalt é uma forma, uma configuração, o modo particular de organização das partes individuais que entram em sua composição.

A premissa básica da Psicologia da Gestalt é que a natureza humana é organizada como um todo, onde suas partes, ou seja, o meio, as relações interpessoais, sua vida interior, tem suas particularidades e influencias neste todo. No entanto, a soma dessas partes não refletem necessariamente esse todo. A experiência é vivenciada pelo indivíduo nestes termos, e só pode ser entendida como uma função das partes ou todos dos quais é feita.

“É de extrema importância aqui frisar que há uma diferença entre a Psicologia da Gestalt, que enfatizou, sobretudo, o estudo das percepções e chegou à conclusão de que a percepção era um fenômeno total e não a soma de elementos isolados, e a Gestalt Terapia, que tem a Psicologia da Gestalt como uma das teorias que a embasam, porém tem fins terapêuticos. Foi essa a contribuição adicional de Frederick Perls (n.d) para a Psicologia da Gestalt.”( Perls n.d., citado por Wallen,1980, p.19 ).

Para a Gestalt-Terapia, é importante que o cliente seja tratado como um ser digno de confiança, isto é, responsável por si mesmo, pois, se escolhe ser o que é, é uma totalidade que pode ser integrada, voltado para a consciência, auto-regulado, em permanente energia de auto-realização e presentificação, e em busca de dar um sentido às suas percepções, às suas experiências, à sua existência.( Ribeiro, 1999).

Sendo assim, a Gestalt-Terapia formou sua base conceitual, para ser aplicada na prática psicoterápica, fazendo uma integração entre idéias de várias correntes teóricas que poderiam ser úteis.

Do Humanismo, onde se tem Sartre (1978) como um dos principais representantes, a Gestalt-Terapia aproveita a idéia de que o homem é responsável por suas escolhas, se escolhe ser o que é. Portanto, compartilha a idéia de que o cliente é o principal responsável por sua vida e as escolhas que faz durante ela.

Do Existencialismo, sobretudo do existencialismo ateu, que acredita ser o homem responsável pelo que é, o qual entra um pouco em desacordo com Kierkegaard (1979), porém não convém explicitar aqui tais diferenças, adota a visão de um cliente como realmente responsável pelo que é.

Assim, um cliente pode e tem capacidade de assumir a responsabilidade do seu modo de ser e dos seus atos no mundo em que vive, nos seus mais diferentes aspectos.

Da Fenomenologia, que tem Husserl (1980) como pioneiro, com sua proposta de suspensão de todos os juízos sobre os objetos que o cercam, e de um ser em relação com o mundo, a Gestalt-Terapia formula seu método de ação, ao lidar com o cliente.Esse método direciona o terapeuta a abster-se de qualquer juízo sobre o cliente, qualquer pré-conceito e tratá-lo sempre como um ser de relações no meio, não isolado.

No que diz respeito à Psicanálise, Perls (1969), como fundador da Gestalt-Terapia, desconsidera, reformula e critica vários dos seus conceitos. Dentre eles, a forma de tratar os sonhos dos clientes na psicoterapia. A Gestalt-Terapia trabalha com os sonhos no presente, convidando o cliente a vivenciá-lo no momento atual.

“Da teoria de Reich, simpatiza-se com a ênfase dada na postura corporal mais solta.”( Reich, citado por Ribeiro, 1985,p.54). A Gestalt-Terapia busca propiciar uma visão do cliente como um todo, em que as partes tem seus significados particulares relacionadas a estes, como o corpo por exemplo.

Da Psicologia da Gestalt, a Gestalt-Terapia aproveitou e utilizou a noção de todo como forma de ver e trazer o cliente para o presente e de vê-lo como um ser de interação constante.

Em relação à Teoria de Campo de Kurt Lewin (1973), houve uma consideração da idéia de que o homem sofre fortes influências do meio e também interfere neste. A Gestalt-Terapia recebe o cliente como um ser em interação constante com o meio, porém, também responsável pelo que é.

Com a Teoria Organísmica (1939), compactuou da idéia de ver o organismo como um todo, e não só pelas suas partes. A Gestalt-Terapia não trabalha apenas com o sintoma do cliente más com o como ele vivencia isso em diferentes contextos.

O Taoísmo de Lao Tse (1990), é aproveitado pela Gestalt-Terapia por ter uma concepção de homem que para se realizar deve tornar-se integrado, isto é, suas forças conflitantes devem ser trazidas a balanço e harmonia. A Gestalt-Terapia também procura promover essa integração no aqui e agora.

Do Zen Budismo, a Gestal-Terapia tira a visão de procurar sempre ver o cliente com um olhar novo, de forma que suas pré-concepções sejam constantemente deixadas à parte no momento de olhar novamente para o fenômeno.

Portanto, na Gestalt-Terapia, a pessoa é pensada no campo, no qual pessoa e meio são realidades interdependentes. Na prática, podemos pensar pessoa e meio como figura e fundo de uma única realidade ( Ribeiro, 1999).

A finalidade da psicoterapia é, prioritariamente, liberar e liderar as forças preservadas da personalidade e não a de debelar sintomas. É importante que a pessoa encontre sua capacidade de fluir, de ser espontânea, porque essas capacidades pertencem à natureza da pessoa, pois provém de um mecanismo inato no ser humano, que é o de auto-regular-se. Ser harmonicamente com o meio circundante ( Ribeiro, 1999).

Dentro do vasto campo da psicoterapia, mais especificamente da Gestalt-Terapia, desenvolveu-se também a psicoterapia breve ou de curta duração, que parte da reflexão da pessoa como um ser que se locomove e se comunica dentro de seu espaço vital, aquém e além de suas próprias fronteiras, num movimento permanente de fluidez, elasticidade e plasticidade, onde pode escolher e agir.

Gestalt-Terapia individual de curta duração é um processo no qual cliente e psicoterapeuta se envolvem em soluções imediatas de situações de qualquer ordem, vividas pelo cliente como problemáticas, utilizando de todos os recursos disponíveis, de tal modo que no mais curto espaço de tempo o cliente possa se sentir confortável para conduzir sozinho sua própria vida (Ribeiro, 1999, p.136).

A psicoterapia breve significa que temos de atuar influenciando os sintomas e o todo do paciente num curto prazo para que ele se torne capaz de agir por conta própria. Ela é uma técnica baseada em ideologia e princípios próprios. É breve porque o cliente deseja respostas mais rápidas.

Para isso, é preciso que se atente para certos procedimentos de como torná –la mais eficaz. Esses procedimentos estão em íntima relação com a visão de pessoa que embazeia a Gestalt-Terapia. O cliente é sempre a figura principal, mesmo havendo grandes diferenças entre cliente e terapeuta e ainda que conservem sua individualidade. O terapeuta desenvolve um papel ativo e presente, sem jamais substituir a opção livre do cliente.

Segundo Ribeiro (1999), algumas atitudes são de grande importância para um começar e desenvolvimento satisfatório em Gestalt-Terapia, tais como: Examinar cuidadosamente o processo pelo qual a pessoa passa, a fim de avaliar a possibilidade ou não de começar um trabalho de curta duração; estabelecer com o cliente um plano claro de trabalho a partir de uma conversa livre e direta cobre a questão a ser trabalhada; utilizar todos os recursos à sua disposição e do cliente a fim de facilitar e apressar o processo de mudança; conduzir o processo terapêutico como uma totalidade mente – corpo – mundo em ação; centrar-se tanto na experiência imediata da pessoa quanto na sua, de maneira clara, direta, precisa, sem subterfúgios; não se aprisionar as teorias, agindo na mais direta conexão com o cliente, atento às necessidades imediatas dele; e agir com humildade, sabendo que a perfeição psicoterapeutica é um ideal e os resultados são apenas uma gota d’ água na imensidão do que significa ser pessoa.

A grande arte da psicoterapia de curta duração é funcionar, agindo imediatamente na totalidade a partir das informações mandadas pelo sintoma, não o perdendo de vista em nenhum momento ( Ribeiro, 1999).

Assim, o cliente, em suas mais variadas formas de comunicação, utiliza-se de maneiras diversas para expressar o que vem sendo vivenciado no seu dia-a-dia. Uma dessas formas de expressão, por sinal, muito interessante, é através do relato de um sonho.

Freud (1900), se referiu aos sonhos como uma realização disfarçada de desejos reprimidos, desenvolvendo assim técnicas de interpretação. Em outro momento, Freud ( 1915), se referiu aos sonhos como uma reação a um estímulo que perturba o sono.

Por ora, é pertinente ressaltar e enfatizar algumas diferenças básicas nas formas de trabalhos com os sonhos entre Freud (Psicanálise) e Perls (Gestalt-Terapia). Freud (1900), tratou os sonhos como mecanismos inconscientes, frutos de relações passadas, de desejos que foram reprimidos no passado e que vem a tona no sono. Sua técnica de investigá-los era a interpretação, carregada de sugestões próprias sobre o que o cliente trazia.

Já Perls (1966), tratou os sonhos como atividades espontâneas, frutos e reflexos de vivencias atuais, expressão do que se vive agora. Sua técnica para investigá-los era a dramatização, proporcionando com que o cliente revivesse seu sonho. Não era tratado como conteúdos do passado e não fazia interpretações, o cliente era estimulado a achar o seu significado no presente.

Perls (1966), relata nunca saber o que é o inconsciente, mas sabe que o sonho é definitivamente, a produção mais espontânea que temos. Acontece com a nossa intenção, trabalho ou deliberação.

Segundo Perls (1966), se alguém quiser trabalhar com os próprios sonhos, que faça-no em conjunto com outra pessoa, porque, perto do ponto de angústia a pessoa ficará fóbica. Tentará evitar, fugirá, ficará subitamente sonolenta ou descobrira que tem alguma coisa muito importante a fazer.

“Notarão que quem trabalha sobre os sonhos da maneira que eu sugiro, isto é, sem interpretações, sem interferência do vosso computador, os órgãos de pensar, deriva um grande proveito disso.”( Perls, 1966, p.272).

A técnica utilizada por Perls (1966), para se trabalhar com os sonhos consiste em fazer o sonho acontecer novamente. Pede-se para o cliente que conte o sonho primeiro, normalmente, do jeito que lhe venha à memória. Após terminar de contar, deixa-o livre para escolher o que quer trabalhar no sonho. Decidido, pede-se ao cliente que conte novamente o sonho, mas desta vez, narrando no presente do indicativo, como se estivesse acontecendo no momento.

Começa-se a psicodramatizar, incentivando o cliente, no decorrer de sua narração, a tomar o lugar dos vários personagens do seu sonho, um a um, independentemente de personagens inanimados ou com vida. É proposto, a todo tempo, que fale, se manifeste, expresse seus sentimentos, movimentos, pensamentos, a respeito do papel que está desempenhando no momento. O psicoterapeuta se mantém o tempo todo ativo, interrogando, fazendo comentários pertinentes, incentivando o cliente no desempenho dos papeis. No fim, é o cliente que será o responsável para dar significados aos diversos papeis desempenhados. O psicoterapeuta apenas o ajuda nesse processo.

Demonstramos, como se vê, que todas as partes diferentes, qualquer parte de um sonho, é a própria pessoa, é uma projeção do seu eu. Se há aspectos incompatíveis, aspectos contraditórios, e os usamos para lutarem entre si, voltamos de novo ao eterno jogo do conflito interno. Em todos esses encontros, observamos que as duas partes são usualmente hostis, no começo. Mas se trabalharmos o tempo bastante, então chegaremos a um entendimento e a uma apreciação das diferenças. ( Perls, 1966, p.281).

Pouco se tem falado e trabalhado na área dos sonhos em Gestalt-Terapia, se não na prática em si, ao menos no que diz respeito a publicações, o que reflete em bibliografias escassas, ficando este tema entregue, quase que unicamente a trabalhos realizados por Frederick S. Perls. Daí a relevância de estar se dedicando a este trabalho, tão rico em propiciar a vivencia e esclarecimento de conflitos internos até então ocultos. Essa relevância ocorre não só a nível clínico individual, mas a nível de publicação.

O objetivo do presente artigo foi expor, de forma sucinta e mais clara possível, o trabalho realizado através do sonho de uma jovem, em Gestalt-Terapia Breve, onde se pôde trazer para o momento atual da vida da mesma, reflexões que até então não haviam sido feitas e que, por conseguinte, ajudaram-na muito na compreensão de si mesma.

Também houve aqui a intenção de divulgação de um trabalho com sonhos em Gestalt-Terapia, dada a inconstante publicação de trabalhos nesta área e ao sucesso da terapia realizada, tanto para a cliente quanto para o terapeuta.



Método

Fez parte deste trabalho, uma cliente adulta, com 25 anos de idade, de classe média baixa, solteira, sem filhos, com ensino médio completo, atualmente, trabalhando como secretária, escolhida aleatoriamente, por uma supervisora responsável pelas fichas de triagem, na presença do estagiário, de acordo com a prioridade na fila de espera.

Todas as intervenções terapêuticas foram realizadas em sala para atendimento individual, com um tamanho em torno de três metros quadrados, com cadeiras, uma mesa, um ventilador, janelas largas, e uma perciana. Para auxiliar na intervenção, os instrumentos usados foram: Texto de técnicas de relaxamento, criadas por Dennis Greenberger e A. Padesky (1995), e técnica de dramatização do sonho no momento presente, criada por Frederick S. Perls.

Após passar por três atendimentos no plantão psicológico, A. foi encaminhada para o atendimento breve e foi dado início ao processo psicoterápico. Ao todo, foram oito sessões, com duração de 50 minutos cada, num período de três meses.

A. começou trazendo várias dificuldades que vem enfrentando desde a morte da avó e subseqüente separação do namorado. Dificuldades como: se sente muito insegura, muito ansiosa, se sente rejeitada pelos homens, devido ao fato de ter sido trocada por outras mulheres e por eles não se aproximarem, sente muita falta de ar e falta da avó, e se cobra muito. Durante as sessões, foram sendo trazidas várias dessas dificuldades e, dentre elas, A. trouxe um sonho que teve com a avó, e se dispôs à investigá-lo mais detalhadamente.

No sonho, relatado, A. chega em uma sala de hospital, onde sua avó já não está mais deitada como antes, está sentada numa maca, aparentemente melhor, em silêncio. Quando A. se aproxima, também em silêncio, cai no chão e fica desacordada, em seguida o sonho acaba. Foi pedido a A. que narrasse o sonho acontecendo no momento presente, vivendo-o no agora, no papel que se encontrava no sonho. A. narrou, vivenciando. Em seguida, foi proposto a A. que narrasse agora na posição de sua avó. A. narrou novamente. Foi perguntado a A. se ela queria dizer algo a sua avó, no sonho. A. respondeu que sim. Logo, foi convidada a dizer o que não havia dito no sonho, como se sua avó estivesse ali no momento. A. começou a chorar profundamente, dirigiu o olhar para o terapeuta, como se fosse sua avó, e disse que a ama muito, se sente muito sozinha, muito insegura sem ela, que prefere estar no lugar dela, e que só está ali no consultório de um psicólogo porque ela se foi. Após um longo período com A. chorando, lhe foi proposto que entrasse no papel da Avó e dissesse para a A. o que não disse no sonho mais gostaria de dizer agora. A., no papel da avó, disse para A. ser forte, ir atrás de seus objetivos, confiar mais em si mesma, e ser mais segura.

Assim, as sessões seguiram com o terapeuta, junto com A., trazendo esses diferentes papéis do seu sonho para o momento atual da sua vida, como conflitos internos a serem resolvidos, e estimulando sua autonomia e tomadas de decisões atuais.

A. foi convidada a fazer uma auto-avaliação de suas diferentes maneiras de agir no dia-a-dia e como poderia mudar o que estava lhe incomodando. A. Chegou à conclusão de que precisa ser mais segura e afirmou que vai pensar mais no agora em vez de querer prever o futuro, para se tornar mais segura de si. Afirmou que vai chegar até os homens em vez de esperá-los e que vai esquecer mais a avó e cuidar da sua vida.

Resultados

Os resultados que foram alcançados com essa psicoterapia breve foram poucos comparados com o que A. ainda vai alcançar ao longo de sua vida. O que se pode frisar aqui é que A., sem soma de dúvidas, passou por um processo impar de auto-reflexão, auto-avaliação de sua vida como um todo.

Tornou-se consciente de que é realmente capaz de tornar-se mais segura de si, pensando mais nas suas realizações atuais e nas coisas boas que podem lhe acontecer em vez de enfatizar as más. Que o estar sozinha depende de sua ação para ser invertido. Decidiu lutar contra o pensamento de querer estar no lugar da avó. Em fim, A. se sentiu muito contemplada com a psicoterapia e acredita fielmente em seu sucesso com o decorrer do tempo, assim como o terapeuta.

Portanto, é realmente muito importante que se veja o cliente como um todo, como um ser em contínua interação entre o individual e o social, como já dizia Kurt Lewin (1937). Sobretudo no momento de escutar o sonho de A. isso foi crucial.

Importante foi também me abster de qualquer pré-julgamento como defende a fenomenologia de Husserl (1980), para escutar as várias partes do sonho de A. sem interferência das minhas interpretações, como nos relata muito bem Perls (1966).No entanto, há que se dizer aqui também que houve uma certa dificuldade da parte de A. em entrar no jogo de dramatização, o que me levou a suspeitar que com alguns clientes essa técnica dos sonhos possa ser inviável. É pertinente enfatizar também que muito pouco material tem se produzido hoje em dia sobre sonhos em Gestalt-Terapia, sendo a sua maioria ainda trabalhos produzidos por Perls (1966).

Conclusão

Pôde-se explicitar através deste artigo, o quanto trabalhar com sonho em Gestalt-Terapia Breve é de extrema relevância para, junto com o cliente, trazer mudanças à sua vida, de forma que o possibilite conduzi-la com autonomia. Através de um único sonho relatado pela cliente foi possível proporcionar reflexões em sua vida nos mais diversos aspéctos, sociais, profissionais, individuais, emocionais, intelectuais, acontecimentos do passado, presente e futuro.

Concluiu-se que o trabalho com os sonhos em Gestalt-Terapia não é uma prática de investigação e interpretação de momentos passados da vida da cliente, como nos foi legado pela Psicanálise, a qual ainda é uma das principais referências no que diz respeito a sonhos.

Pelo contrário, ficou evidente que pela vertente Gestáltica o trabalhar com sonhos se fás sem interpretações do terapeuta, porém, com uma postura ativa e questionadora, e enfatiza-se o momento atual da vida da cliente, englobando o todo e o particular, dando-lhe condições para se responsabilizar por sua vida de maneira ativa e transformadora.

Foi possível concluir que trabalhando com os sonhos da forma como Perls (1966) desenvolveu, frisando o presente, foi extremamente pertinente e satisfez as expectativas de uma terapia breve, onde se fás necessário uma promoção de mudanças mais rápidas e práticas. A cliente sentiu-se muito beneficiada, e desenvolveu através de esforços próprios uma maior capacidade de gerar mudanças em sua vida.

Referencias Bibliográficas

Fagan, J. & Shepherd, J.L (Orgs). (1980). Gestalt-Terapia: Teoria, Técnica e Aplicações

(A. Cabral, Trad.). In R.Wallen, Gestalt-Terapia e Piscologia da Gestalt. (pp.19-26).

Rio de Janeiro: Zahar Editores.

Fagan. J. & Sepherd, J. L. (Orgs.). (1980). Gestalt-Terapia: Teoria, Técnica e Aplicações (A. Cabral, Trad.). In F.S.Perls, Seminários sobre o Sonho. (pp.272-302). Rio de Janeiro: Zahar Editores.

Freire, J. R. (1998). Raízes da Psicologia. In I.R.Freire, A Gestalt. (pp.115-121). Petrópolis: Editora Vozes.

Perls, F. S. (1977). Gestalt-Terapia Explicada (2° Ed.). (G. Schlesinger, Trad). São Paulo: Summus Editorial.

Perls, F. S. (1981). A Abordagem Gestaltica e Testemunha Ocular da Terapia (2° Ed.). (J. Sanz, Trad.). Rio de Janeiro: Zahar editores.

Ribeiro, J. P. (1999). Gestalt-Terapia de Curta Duração (2° Ed.). São Paulo: Summus.

Ribeiro, J. P. (1985). Refazendo um Caminho. São Paulo: Summus.

Sartre, J. P (1978). O Existencialismo é um Humanismo. São Paulo: Abril Cultural.

Suzuki, D.C. (1969). Introdução do Zen-Budismo. São Paulo: Pensamento.

Tse, L. (1990). O Livro do Caminho Perfeito. São Paulo: Pensamento.

FONTE:http://www.igt.psc.br/Artigos/sonho_em_gestalt-terapia_breve_uma_vivencia_no_aqui_e_agora.htm

ATENÇÃO E MEMÓRIA

NA ATUAÇÃO CLÍNICA EM GESTALT-TERAPIA

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Este artigo se propõe a delinear uma breve relação entre conceitos da psicologia cognitiva ligados aos processos de memória e atenção e a abordagem clínica da Gestalt-Terapia. Pretendo não me ater à definições sistemáticas dos conceitos trazidos por Robert J. Sternberg em seu livro Psicologia Cognitiva (2000), buscando fazer uma correlação mais objetiva quanto às propostas e posicionamentos expressos pela Gestalt-Terapia enquanto prática em psicoterapia.

Qual a relação entre a Gestalt-Terapia e a Psicologia Cognitiva? Aparentemente nenhuma, tendo em vista que a primeira se caracteriza fundamentalmente como uma abordagem em psicoterapia e a outra como uma linha de investigação científica da psicologia. Ambas, no entanto, sofrem influência direta da Psicologia da Gestalt, sistema teórico da psicologia caracterizada principalmente por suas contribuições na investigação de processos psicológicos ligados à percepção, memória e aprendizado.
Afora essa semelhança quanto à fundamentação teórica, é difícil entrever uma relação mais profunda entre essas duas vertentes de conhecimento e prática da psicologia. Podemos constatar, no entanto, que processos como o de atenção, percepção e memória, detidamente trabalhados pela Psicologia Cognitiva tem sua aplicabilidade constatada, mesmo que indiretamente e de forma subliminar na prática clinica da Gestalt-Terapia.
A Gestalt-Terapia é uma abordagem criada por Frederick Salomon Perls, conjuntamente com Laura Perls e Paul Goodman, inicialmente como uma técnica psicoterápica. Influenciada não apenas pela Psicologia da Gestalt, a Gestalt-Terapia nasce fundamentada também pela teoria de campo de Hurt Lewin, pela teoria organísmica de Goldenstein e pela holística de Smuts, como fundamentos teóricos, além do movimento humanista, da fenomenologia, do existencialismo e da filosofia dialógica de Martin Buber, sem contar com as influencias orientais do Zen-budismo, como bases filosóficas (Kiyan, 2001).
Essa abordagem baseia-se numa concepção de homem sadio, em constante reação de contato em variados campos, no psicoemocional e sócio-ambiental (Ribeiro, 1997), numa dinâmica voltada para a realização de suas necessidades e desenvolvimento do sujeito.
A concepção de saúde da Gestalt-Terapia envolve uma idéia de homem em constante interação com o mundo, envolvida num ciclo de relações fundamentais norteadas por uma dinâmica dialética de contato e fuga, tendo como finalidade principal alcançar e equilíbrio - homeostase - do organismo. Quando há interrupção deste ciclo - o ciclo de contato - e as tensões e necessidades não encontram uma forma de satisfação, estabelece-se um processo de desequilíbrio que representa as interrupções neuróticas do contato.
Através de uma abordagem centrada no sujeito e voltada para o restabelecimento deste ciclo e de sua dinâmica, o terapeuta busca, através de uma perspectiva vivencial e expressiva, munida por técnicas diversas, possibilitar no sujeito o seu retorno no ciclo contato, à uma interação saudável com o mundo em suas diversas dimensões interativas. Em termos gerais, o gestalt-terapueta objetiva possibilitar ao cliente uma tomada de consciência - awareness - de sua realidade existencial e de sua condição ativa sobre o mundo e sua vida.
Para se estabelecer essa tomada de consciência, utilizam-se métodos que possibilitam um encontro vivencial do sujeito com sua própria realidade, através de técnicas psicodramáticas ou formas de expressão do sujeito por si mesmo, mediado pelo terapeuta, que facilita seu encontro e seu processo de auto-descoberta.
Sim, mas de que forma a atenção e a memória entra neste processo?
Para iniciar efetivamente essa correlação, proposta no início deste texto, utilizarei-me da citação de William James, trazida por Sternberg, na introdução do seu capítulo sobre Atenção e Consciência (p.78):

[Atenção ] é a tomada de posse da mente, em uma forma clara e vívida, de um dos diversos objetos ou séries de pensamentos que parecem simultaneamente possíveis... Implica o abandono de algumas coisas, a fim de ocupar-se efetivamente de outras. - William James, Principles of Psycology.

Segundo esta citação, a atenção é concebida como uma função ativa da mente, com o sentido de direcionar o indivíduo a entrar em contato com estímulos do meio ou pensamentos, mobilizando-o num ato de intencional sobre si e sobre o mundo. De acordo com essa interpretação, a atenção constitui-se um processo fundamental e indispensável na prática terapêutica da Gestalt-Terapia, tendo em vista que a tomada de consciência - awereness - nada mais é do que a possibilidade de o sujeito entrar em contato direto com seus pensamentos, suas emoções e aflições, bem, como atentar-se para os vínculos e relações desempenhadas por ele no mundo no qual ele se encontra inserido como ser existencial e ativo.
Sternberg, em seu capítulo sobre Atenção e Consciência busca estabelecer uma diferenciação inicial entre estes dois conceitos. Ele relata que os psicólogos costumavam confundir atenção com consciência, sendo esta última caracterizada como "o fenômeno pelo qual não apenas processamos ativamente a informação, mas também estamos conscientes disso", enfatizando a tendência atual de se conceber um processamento ativo da atenção sem necessariamente o envolvimento de nosso conhecimento consciente. Desta forma ele introduz a concepção de um processamento pré-conciente da atenção, envolvido principalmente em fenômenos como a percepção subliminar, o priming e os processos automáticos.
Os processos automáticos, em particular, são considerados como recurso cognitivo importante, que envolve a economia de energia para a realização de atividades do sujeito, possibilitando um maior dinamismo em sua interação com o mundo.
Em sua obra Gestalt-Terapia, Perls, juntamente com Goodman e Hefferline expõe a existência de três propriedades do Self, o Ego, o Id e a Personalidade, que compreenderiam mecanismos constituintes da dinâmica de interação e contato do sujeito com o meio à sua volta. Ao Id, caberia os aspectos mais primários e básicos do contato, e envolveria um gasto mínimo de energia por parte do organismo. Perls salienta, entretanto, o caráter de intencionalidade da relação, que envolveria, em certa medida, o papel da consciência, exercido pelo Ego, é fundamental para a realização de um contato pleno.
A Gestalt-Terapia valoriza imensamente esse caráter da consciência no processo de interação do sujeito com o mundo, a ponto de constituir um de seus objetivos maiores enquanto prática psicoterápica, possibilitar o restabelecimento dessa intencionalidade, bem como a formação de uma responsabilidade existencial do sujeito sobre sua própria vida.
Na introdução de seu livro A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia, Perls salienta a sua crítica à avassaladora rotina da vida moderna, norteada por automatismos que acabam por impedir que o homem entre em contato direto com o mundo e consigo mesmo. Qualifica, pois, essa rotina como o responsável pela dessensibilização do homem para com sua própria vida e saúde, por aliena-lo dos prazeres e das experiências a cada momento possíveis e indispensáveis para se alcançar um estado de auto-realização.
Em todo o caso, a própria concepção de consciência da Gestalt-terapia é distinta da defendida pela Psicologia Cognitiva, envolvendo uma dimensão além do pensamento consciente e racional, e envolvendo uma dimensão integrativa do sujeito em seus diversos campos de interação.
O que aproxima ambas abordagens é a idéia da atenção consciente quanto aos seus objetivos, expressos de forma precisa por Sternberg:

(...) a atenção consciente satisfaz outros três objetivos: (1) monitorar nossas interações com o ambiente, mantendo nossa consciência de quão bem estamos nos adaptando à situação na qual nos encontramos; (2) ligar nosso passado (memórias) e nosso presente (sensações) para dar-nos um sentido de continuidade da experiência, que pode até servir como a base para a identidade pessoal; e (3) controlar e planejar nossas futuras ações, com base na informação da monitorização e das ligações entre as memórias e as sensações presentes. 4

A partir dessa citação, podemos estreitar a relação possível entre a Gestalt-Terapia e a Psicologia Cognitiva, no que diz respeito à atenção e à memória. A pratica da Gestalt-Terapia vem justamente no sentido de buscar possibilitar no cliente esta consciência de suas interações com o mundo, buscando uma adaptação mais efetiva do sujeito aos eventos à sua volta, adaptação esta que não implica em ato passivo, mas em admissão de uma atitude consciente e responsável sobre seus atos e suas conseqüências sobre o mundo e sobre sua própria vida.
A ausência de uma postura consciente e engajada, segundo a Gestalt-Terapia, é que leva a um processo de adoecimento do sujeito, equivalente à interrupção do contato deste com o mundo, se prendendo a velhas formas de contato, a repetições e introjeções de emoções e sentimentos que acabam por desestabilizá-lo em todos os seus campos de relação.
As técnicas psicoterápicas dessa abordagem são realizadas no sentido de possibilitar essa tomada de consciência para todos os aspectos que constituem o sujeito enquanto totalidade, fazendo-o vivenciar no momento imediato do aqui-agora as questões que emergem como necessidades ou pendências que por ventura tragam sofrimento a ele. Para tanto, o terapeuta busca trabalhar no cliente uma atenção seletiva, tentando centrar suas queixas nas questões - figuras ou gestalten incompletas, segundo o jargão gestáltico da dinâmica perceptual figura-fundo - mais significativas e emergentes que surgem no encontro terapêutico.
Ao próprio terapeuta cabe o papel de manter, no momento do encontro com o cliente, uma vigilância constante, a fim de que possa captar os elementos significativos que por ventura surjam no discurso do cliente, em seu comportamento observável, em suas reações a intromissões por ele realizadas, mantendo a todo instante um contato intencional, realizando intervenções pertinentes e adequadas à cada situação. É claro que há sempre a possibilidade de a "vigilância terapêutica" direcioná-lo a respostas equivalentes às da teoria da detecção de sinal (TDS), da Psicologia Cognitiva:

Segundo a teoria da detecção de sinal, há quatro conseqüências possíveis de uma tentativa para detectar um sinal: acertos (também chamados "corretos positivos"), nos quais identificamos corretamente a presença de um sinal; alarmes falsos (também denominados "falsos positivos"), nos quais identificamos corretamente erroneamente a presença de um sinal que é realmente ausente; erros (também chamados "falsos negativos"), nos quais deixamos erroneamente de observar a presença de um sinal; e rejeições corretas (também denominadas "corretos negativos"), nos quais identificamos corretamente a ausência de um sinal.

De forma bem evidente, é possível evidenciarmos esses possíveis caminhos (acertos, alarmes falsos, erros ou rejeições) defrontados pelo terapeuta durante os instantes em que interage com o cliente e busca, de forma vigilante, perceber cada detalhe que por ventura o paciente expressa sobre suas aflições. A maioria das vezes, os conteúdos trazidos pelo cliente se de forma não consciente, em suas diversas manifestações, seja, como já disse, pelo discurso, seja por outros recursos, como os gestos, a interpretação de situações vivenciadas, ou por expressões artísticas.
No que diz respeito à interpretação de situações vivenciadas, e angústias decorrente de situações inacabadas, remeto ao papel da memória, que juntamente com a atenção e a consciência, tem participação fundamental na definição do psicodiagnóstico dos casos e no andamento do trabalho terapêutico.
Muito dos conteúdos apresentados no encontro terapêutico vêm de experiências vividas pelo sujeito e que retornam constantemente à consciência do paciente, causando-lhe angústia, por não sentir-se capaz de, sozinho, conseguir superá-las. Esse processo de recuperação das informações armazenadas na memória, a maioria das vezes requer lembranças associadas à memória de evocação, de idéias já conhecidas, de fatos já vivenciados e que muitas vezes emergem sem uma ordem exata (evocação livre), seguindo o fluxo das ideais que vão se associando ao longo da fala do cliente. Muitas vezes, no entanto, esse processo pode se dar de forma implícita, sem que o cliente se dê conta exatamente dos elementos que agem em sua vida, influenciando em seu estado de ansiedade, mas que se manifesta e persiste em seus comportamentos presentes, em suas resistências e rejeições quanto a contato consigo e com seus campos de interação.
Cabe ao terapeuta mobilizar recursos para que o cliente possa entrar em contato com essas memórias e vivencie de forma atenta cada sensação envolvida naquela experiência ou sentimento evocado. Ao trazer para a consciência elementos mnemônicos, o terapeuta mobiliza o cliente a tomar consciência de elementos presentes em sua memória de longo prazo que dão uma idéia do sujeito enquanto uma integralidade, um processo contínuo de experiências vivenciadas, atentando para cada aspectos, cada comportamento experienciado ou idealizado, de modo a fazer com que mobilize energias a fim de que possa posicionar-se de forma ativa e existencial sobre sua própria realidade.
Muitas vezes, o terapeuta faz com que o cliente repita frases que ele mesmo havia expressado e que podem vir impregnada de significações, e que muitas vezes não perceptíveis. Essa repetição possibilita que o cliente mantenha por mais tempo uma determinada informação como figura emergente no campo perceptual, possibilitando que ele tome consciência de alguns aspectos de sua fala ou de traços de seu próprio comportamento, tom de voz, etc, e os ressignifique. A partir dessa ressignificação, através da vivencia enquanto possibilidade ou expressão existencial, é possível o armazenando de uma nova experiência, de novos (auto-)conceitos, revistos e reelaborados, em sua memória, de modo a retroagir positivamente em seu comportamento futuro.
Desta forma, novamente, a atenção e a memória se associam e interagem juntamente com os processos de auto-percepção do cliente, na prática terapêutica, em destaque na Gestalt-Terapia, possibilitando que ele tome consciência existencial de si-mesmo, e possa vivenciar o aqui-agora, elaborando projetos mais coerentes e integrados para o futuro, aberto à perspectiva do contato e da relação consigo e com o mundo à sua volta.

Creio ter me detido um pouco mais sobre a questão da atenção, mas considero que esta é fundamental tanto no processamento de aquisição quanto de evocação de memória, seja de curto, seja de longo prazo. Como deixei claro, no início do artigo, pretendo relacionar esses dois conceitos, de atenção e memória à prática da Gestalt-Terapia. Por tratar-se de um artigo curto, não foi possível explanar melhor sobre alguns conceitos, tanto dessa abordagem como da Psicologia Cognitiva. Espero, no entanto, poder ter atrelado, ao menos de forma panorâmica, algumas idéias fundamentais de ambas abordagens e teorizações da psicologia.
Concluo afirmando que tanto a atenção quanto a memória são elementos indispensáveis para a manutenção e operacionalização do ser humano, possibilitando sua interação com o mundo, viabilizando processos de percepção da realidade e formação de autoconceitos. Assim, a possibilidade de relacionar idéias e conceitos das mais diversas linhas de pensamento, como tencionado aqui, neste breve artigo, só demonstra a riqueza e as possibilidades de construção de um saber, cada vez mais amplo sobre o homem, em seu processo de construção e auto-descoberta, seja através de estudos científicos, como os da Psicologia Cognitiva, seja por meio de práticas voltadas para a compreensão do homem em interação consigo e com o outro, no mundo ou em um encontro terapêutico.

Salavdor, 11/12/2005


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

KIYAN, Ana Maria Mezzarana. E a Gestalt emerge: vida e obra de Frederick Perls. - São Paulo: Editora Altana, 2001. (Coleção Indentidades)

PERLS, Frederick., HEFFERLINE, Ralph., GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. - São Paulo: Summus, 1997

PERLS, Fritz. A abordagem gestáltica e Testemunha ocular da terapia. - Rio de Janeiro: LTC Editora, 1988.

RIBEIRO, Jorge Ponciano. O ciclo do contato: temas básicos na abordagem gestáltica. - São Paulo: Summus, 1997.

RODRIGUES, Hugo Elídio. Introdução à Gestalt-Terapia: conversando sobre os fundamentos da abordagem gestáltica. - Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

STERNBERG, Robert J. Psicologia cognitiva. ¿ Porto Alegre: Artes Medicas Sul, 2000.

FONTE:http://www.ruinas_aladas.blogger.com.br/2005_12_01_archive.html

JACOB LEVY MORENO


JACOB LEVY MORENO


Jacob Levy Moreno é o criador do Psicodrama. Nasceu em 1889, na Romênia (cidade de Bucarest). Viveu uma experiência interessante, que foi a brincar de ser Deus. Segundo ele, foi aí que surgiu a idéia de espontaneidade. Acreditava que no teatro existiam “possibilidades ilimitadas para a investigação da espontaneidade no plano experimental”. Com a criação do “ jornal vivo ”, estavam sendo lançadas as raízes do Sociodrama. Em 1931, introduziu o termo Psicoterapia de Grupo, onde teve sua origem científica. O Psicodrama foi introduzido no Brasil em 1930.

Segundo Moreno, o indivíduo deve ser concebido e estudado através de suas relações interpessoais. Ao nascer, a criança é inserida num conjunto de relações, primeiramente com sua mãe (que é seu primeiro ego auxiliar), seu pai, irmãos, avós, tios, etc.; este conjunto foi denominado de Matriz de Identidade.

O homem para Moreno é um indivíduo social, pois nasce em sociedade e necessita dos outros para sobreviver, sendo apto para conviver com os demais. Assim, ele criou a Socionomia, que significa o estudo das leis que regem o comportamento social e grupal.

A sociodinâmica estuda o funcionamento (ou dinâmica) das relações interpessoais. Tem como método de estudo role-paying, que permite ao indivíduo atuar dramaticamente diversos papéis, desenvolvendo deste modo um papel espontâneo e criativo.

A sociatria constitui a terapêutica das relações sociais, e utiliza como método: a Psicoterapia de Grupo, o Psicodrama e o Sociodrama; como aplicação destes, Moreno vislumbrava a possibilidade de tratamento e de cura do social mais amplo. O Psicodrama é o tratamento do indivíduo e do grupo através da ação dramática. No Psicodrama de grupo o protagonista poderá ser um indivíduo ou o próprio grupo. A Psicoterapia de grupo prioriza o tratamento das relações interpessoais inseridas na dinâmica grupal. No Sociodrama, o protagonista é sempre o grupo e as pessoas estão reunidas enquanto mantêm alguma tarefa ou objetivo em comum.

A visão Moreniana de Homem

A espontaneidade, a criatividade e a sensibilidade são recursos inatos do homem. Desde o início ele traz consigo fatores favoráveis a seu desenvolvimento, porém estes podem ser perturbados por ambientes ou sistemas sociais constrangedores.

Moreno não considerava o nascimento como um evento angustiante e traumático, concebendo o rebento humano como um agente participante desde esse momento. O fator E ou espontaneidade é a capacidade de responder adequadamente à situação, utilizada pela primeira vez no nascimento. O homem nasce espontâneo e deixa de sê-lo devido a fatores adversos tanto do ambiente afetivo-emocional (Matriz de Identidade e átomo social), quanto do ambiente social em que a família se insere (rede sociométrica e social).

A Revolução Criadora moreniana propõe o rompimento com os padrões de comportamento, valores e formas estereotipadas de participação na vida social, que acarretam a automatização do homem (conservas culturais).

Para que tenhamos o prazer de nos sentirmos vivos é preciso que nos reconheçamos como agentes de nosso próprio destino. A espontaneidade é a capacidade de agir de modo “adequado” diante de situações novas, procurando transformar seus aspectos insatisfatórios.

Para promover mudanças no ambiente, pensamos e agimos em função de relações afetivas, mesmo que não o façamos conscientemente.

A possibilidade de modificar uma dada situação implica em criar, e a criatividade é indissociável da espontaneidade (esta permite que o potencial criativo de atualize e se manifeste).

Segundo Moreno, a criança aos poucos, com o desenvolvimento de um fator inato, chamado Tele, vai distinguindo objetos e pessoas, sem distorcer seus aspectos essenciais; assim Tele é a capacidade de se perceber de forma objetiva o que ocorre nas situações e o que se passa entre as pessoas.

Toda ação pressupõe relação, factual ou simbólica (relação com pessoas reais ou imaginárias, que têm sua presença representada). Toda relação pressupõe formas de comunicação.

O fator Tele influi decisivamente sobre a comunicação, pois só nos comunicamos a partir do que podemos perceber. Para Moreno, Tele é também uma “percepção interna mútua entre dois indivíduos”.

A empatia é a captação, pela sensibilidade dos sentimentos e emoções de alguém ou contidas, de alguma forma, em um objeto. Assim, Moreno escreveu certa vez que “o fenômeno Tele é a empatia ocorrendo em duas direções”.

Segundo Moreno, a transferência equivalia ao embotamento ou à ausência do fator Tele, e como o Psicodrama tinha por objetivo reavivar a espontaneidade e o Tele, a recuperação destes, seriam fatores de saúde mental e criatividade, superando o apego desfavorável a situações do passado. Uma parte do teste sociométrico, o “perceptual”, verifica a capacidade de cada elemento de um grupo de captar os sentimentos e expectativas dos outros em relação a ele.

Um dos objetivos do Psicodrama, do Sociodrama e da Psicoterapia de Grupo é descobrir, aprimorar e utilizar os meios que facilitem o predomínio das relações télicas sobre relações transferenciais.

O encontro é a experiência essencial da relação télica , é apelo para a sensibilidade do próximo, é apelo da espontaneidade.

É no momento do encontro e no momento da criação, onde há situações em que o ser humano se realiza, afirmando o que é essencial no seu modo de ser.

Moreno salientava que é importante pensar a respeito da interação humana levando em conta, principalmente, o tempo presente; trata-se de averiguar a relação presente e as correntes afetivas, tais como estão sendo transmitidas e captadas aqui e agora.

Segundo este, os “estados co-conscientes e co-inconscientes” são aqueles que os participantes têm experimentado e produzido conjuntamente e só podem ser reproduzidos ou representados conjuntamente.

A resistência interpessoal corresponde a uma resistência a reconhecer certos aspectos próprios, que casa um atribui ao outro, e que freqüentemente se apresenta como resistência frente ao outro; vencida esta resistência, a ação psicodramática permitiria a superação de conflitos co-inconscientes.

FONTE:http://paginas.terra.com.br/saude/victoria/psifotmoreno01.htm

O QUE É PSICODRAMA?


"Drama" significa "ação" em grego. Psicodrama pode ser definido como uma via de investigação da alma humana mediante a ação. É um método de pesquisa e intervenção nas relações interpessoais, nos grupos, entre grupos ou de uma pessoa consigo mesma. Mobiliza para vivenciar a realidade a partir do reconhecimento das diferenças e dos conflitos e facilita a busca de alternativas para a resolução do que é revelado, expandindo os recursos disponíveis. Tem sido amplamente utilizado na educação, nas empresas, nos hospitais, na clínica, nas comunidades.
O Psicodrama é uma parte de uma construção muito mais ampla, criada por Jacob Levy Moreno, a Socionomia. Na verdade, a denominação da parte foi estendida para o todo e, quando as pessoas usam o termo Psicodrama, estão, geralmente, se referindo à Socionomia. Ciência das leis sociais e das relações, a socionomia é caracterizada fundamentalmente por seu foco na intersecção do mundo subjetivo, psicológico e do mundo objetivo, social, contextualizando o indivíduo em relação às suas circunstâncias. Divide-se em três ramos: a Sociometria, a Sociodinâmica e a Sociatria, que guardam em comum a ação dramática como recurso para facilitar a expressão da realidade implícita nas relações interpessoais ou para a investigação e reflexão sobre determinado tema.

A Sociometria, através do teste sociométrico, mensura as escolhas dos indivíduos e expressa-as através de gráficos representativos das relações interpessoais, possibilitando a compreensão da estrutura grupal.

A Sociodinâmica investiga a dinâmica do grupo, as redes de vínculos entre os componentes dos grupos.

A Sociatria propõe-se à transformação social, à terapia da sociedade.

A Sociodinâmica e a Sociatria têm objetivos complementares e utilizam-se das mesmas técnicas: o Psicodrama, o Sociodrama, o Role Playing, o Teatro Espontâneo, a Psicoterapia de Grupo.

Enquanto técnicas, a diferença entre o Psicodrama e o Sociodrama consiste em que no primeiro o trabalho dramático focaliza o indivíduo embora sempre visto como um ser em relação - e no segundo focaliza o próprio grupo. A transformação social e o trabalho com a comunidade era o grande sonho de Moreno. No começo do século XX, ele ia às praças e ruas de Viena e relacionava-se com crianças e adultos, estimulando-os a descobrirem novas formas de estar no mundo. A filosofia do momento, que embasa a teoria e a prática psicodramática, foi sendo configurada através de sua observação do potencial criativo do ser humano.

Desde então, o Psicodrama vem se transformando, desenvolvendo-se como teoria e como prática. Profissionais da área clínica adaptaram-no para o atendimento processual em consultório, muitas vezes num enquadre de psicoterapia individual, trazendo novas contribuições para a teoria psicodramática do desenvolvimento emocional e para a compreensão da psicopatologia, assim como para a configuração de modelos referenciais na compreensão da experiência emocional humana e dos grupos. Neste contexto, mais comumente, a expressão dos impedimentos e conflitos envolve tensão, agressividade e, principalmente, o reconhecimento e acolhimento da dor psíquica.

Na última década, testemunhamos um resgate das origens do Psicodrama no teatro e no social, com inúmeras contribuições para a metodologia psicodramática. Novas modalidades do teatro espontâneo foram apresentadas para trabalhar questões humanas mantendo a privacidade das pessoas, condição necessária para o trabalho educacional. A prática psicodramática, em suas inúmeras modalidades, começa pelo envolvimento das pessoas com o tema ou com a experiência a ser vivenciada, através de lembranças ou histórias do cotidiano dos indivíduos e/ou das organizações.

Cabe ao diretor manejar as técnicas psicodramáticas, como recursos de ação, para garantir o envolvimento do grupo e a escolha da cena protagônica, que refletirá a experiência dos presentes. Ele vai convidando todos para participarem na criação conjunta do enredo, favorecendo a emergência da realidade grupal. Neste sentido, o Psicodrama é facilitador da manifestação das idéias, dos conflitos sobre um tema, dos dilemas morais, impedimentos e possibilidades de expressão em determinada situação. Fundamentado na teoria do momento e no princípio da espontaneidade, promove a participação livre de todos e estimula a criatividade na produção dramática e na catarse ativa.

Finaliza-se com os comentários, inicialmente dos participantes da cena e depois do grande grupo, com a identificação da realidade que acaba de ser vivenciada e com o levantamento de soluções possíveis para as questões abordadas. No trabalho com o social, buscam-se soluções práticas e reais para os problemas, contribuindo para a descoberta de alternativas que promovam o desenvolvimento sustentável nas comunidades.

O principal objetivo da ação dramática é favorecer aos membros do grupo a descoberta da riqueza inerente em vivenciar plenamente o status nascendi da experiência grupal, participando com a maior honestidade possível no momento. Desta maneira, os participantes recriarão no grupo seus modelos de relacionamento, confrontando e sendo confrontados com as diferenças individuais, condição necessária para apreenderem a distinção entre sua experiência emocional e a dos outros, sendo cada um deles agente transformador dos demais.

O Psicodrama vem expandindo suas fronteiras, ampliando a diversidade de experiências de intervenção psicossocial . Acompanhando esta expansão, a produção científica tem procurado aprofundar as questões provocadas por esta prática renovada. Os psicodramatistas são profissionais de diferentes áreas: médicos, psicólogos, pedagogos, fonoaudiólogos, profissionais de RH, todas as pessoas que em seu exercício profissional trabalham com grupos.

A Federação Brasileira de Psicodrama - FEBRAP dedica-se ao ensino e ao desenvolvimento da proposta socionômica de Moreno, promove eventos científicos - com destaque para o Congresso Brasileiro - e intercâmbio com a comunidade científica internacional, sempre estimulando a reflexão sobre a teoria e prática do Psicodrama, seus alcances e possibilidades de intervenção social.

Fonte: FEBRAP
http://paginas.terra.com.br/saude/victoria/psitexpsicodrama.htm

sábado, 22 de setembro de 2007

Alguns aspectos da história e da fundamentação da Gestalt-terapia

Ênio Brito Pinto

Minha intenção é apresentar um breve panorama da história da Gestalt-terapia. Talvez mais do que um panorama, um breve retrato. Um retrato bastante reduzido, mas que, espero, possa dar uma idéia suficientemente abrangente da filosofia e da técnica da Gestalt-terapia.

A Gestalt-terapia é uma teoria de personalidade e uma teoria de psicoterapia que vem sendo continuamente desenvolvida por autores contemporâneos. Faz parte da chamada terceira força em Psicologia, ou corrente humanista, que emergiu como reação às visões psicanalítica e comportamentalista do ser humano.

São alguns conceitos básicos da Gestalt-terapia: o ser humano é um ser de relação (relação consigo mesmo, com o mundo, com os outros); totalidade e integração (a pessoa como uma unidade psique-corpo-espírito); o ser humano como unidade indivíduo-meio (o ser humano está constantemente interagindo com limites sociais e ambientais); unidade de passado, presente e futuro (o aqui-e-agora é o tempo e o lugar onde as modificações podem ocorrer); auto-regulação (o ser humano é um todo unificado que se auto-regula). Em suma, a teoria da Gestalt-terapia é uma teoria de processos, ou seja: o que importa é o relacionamento entre eventos. A visão do gestalt-terapeuta é uma visão voltada para a dinâmica que acontece em determinado momento da vida de uma pessoa. Assim, entendem-se as estruturas da personalidade como funções ou conjuntos de funções, não como entidades. São mais importantes o ‘como’ e o ‘para que’ do que o ‘o que’ ou o ‘porquê’.

A premissa da qual parto é a de que toda abordagem em psicologia apresenta, ainda que apenas implicitamente, uma teoria do ser humano. A Gestalt-terapia pretende ser uma síntese criativa e coerente, em constante transformação, de algumas correntes filosóficas ou psicoterápicas: o humanismo, o existencialismo, a psicologia fenomenológica, a psicanálise freudiana, os trabalhos de Reich, a psicologia da Gestalt, a teoria organísmica de Goldstein, a teoria de Lewin, alguns aspectos do taoísmo e do budismo. É desse base de influências que se pode depreender a visão de ser humano da abordagem gestáltica.

O principal criador da Gestalt-terapia foi Frederick Salomon Perls, o Fritz Perls, como ficou conhecido. Fritz nasceu em Berlim, em 1893, filho de pais judeus.

Em 1920, aos 27 anos, portanto, graduou-se em Medicina, passando a trabalhar como neuropsiquiatra.

Em 1926, em Frankfurt, trabalhou com o neuropsiquiatra Kurt Goldstein e com sua assistente, Laura Posner, mais tarde co-fundadora da Gestalt-terapia, assim como Paul Goodman e Ralph Hefferline. Perls e Laura casaram-se algum tempo depois de seu trabalho com Goldstein.

Goldstein é um dos expoentes da teoria organísmica, uma das principais influência exercidas sobre Perls e, por extensão, sobre a Gestalt-terapia. Vem daí a idéia central na Gestalt-terapia de se considerar o indivíduo como um todo, uma entidade biopsicossocioespiritual.

Do trabalho de Goldstein, imensamente importante para a Gestalt-terapia, pode-se deduzir que “o ser humano é regulado e tende ao equilíbrio. Realiza-se intensamente atendendo às suas necessidades. Para tanto, compõe-se com o ambiente e/ou redistribui intensamente sua energia pelo organismo. É este o homem uno e integrado.” (Martins, 1995, p. 57) Para Ribeiro (1999, p. 118 e ss), os processos básicos, em termos de dinâmica específica de comportamento, segundo Goldstein, são 3: 1) Processo de equalização ou centragem do organismo;2) Auto-realização; 3) Pôr-se em acordo com o meio ambiente.[1]

Uma vez que já vimos, ainda que muito superficialmente, as idéias básicas de Goldstein que influenciam a Gestalt-terapia, vamos dar uma olhada em outra das mais importantes bases da Gestalt-terapia: assim como muitas das abordagens em psicoterapia, a Gestalt-terapia é, de certa forma, filha da Psicanálise. Fritz Perls e sua mulher, Laura, eram psicanalistas quando lançaram as bases da Gestalt-terapia. Durante este tempo de trabalho, fizeram um trajeto desde a Alemanha (de onde fugiram do terror nazista) até os EUA, onde finalmente se radicaram, passando pela Holanda e pela África do Sul, onde residiram e trabalharam por alguns anos, até fugirem do fascismo representado pelo “apartheid”, chegando finalmente aos EUA. As influências da Psicanálise sobre a Gestalt-terapia são um dos pontos mais debatidos no interior da abordagem gestáltica, havendo mesmo teóricos que dizem que ela se dá muito mais pelo que não fazer que pelo que fazer em um trabalho psicoterapêutico. Voltarei mais adiante a este tema.

De Friedlander, Perls aproveita o conceito de indiferença criativa e a maneira de ver as polaridades, ou seja, o aspecto da qualidade polar da vida humana: a polaridade da personalidade é um dos pilares da Gestalt-terapia. De Jan Smuts, Fritz traz importantes reflexões sobre o holismo. Com relação ao trabalho com os sonhos, há influência de Jung, que via os sonhos mais como expressões pessoais criativas do que como disfarces inconscientes de experiências problemáticas ou apenas motivados por realizações de desejos. Em Gestalt-terapia, os sonhos são entendidos também em termos de situações inacabadas que clamam por satisfação e finalização. Este conceito (situação inacabada) nos leva a outra influência recebida pela Gestalt-terapia: a teoria da aprendizagem da Gestalt, desenvolvida por Wertheimer, Köhler e Koffka, na Alemanha dos anos vinte. Influência tão marcante que acabou por determinar o nome da teoria que Perls criaria.

A fundamentação básica da Psicologia da Gestalt é a de que a percepção depende da totalidade das condições estimulantes, ou seja, depende do campo total (indivíduo-meio), quer dizer, depende de características do estímulo e da organização neurológica e perceptiva da pessoa.

A palavra “Gestalt”, derivada da raiz germânica “Gestalten”, significa todo ou configuração. Na Psicologia da Gestalt, gestalten são totalidades significantes da experiência. Para a Psicologia da Gestalt o todo é diferente da soma de suas partes. Há uma condição inata de necessidade humana de organização e de integridade da experiência perceptual, da qual podemos depreender que uma pessoa não pode prosseguir seu processo de crescimento até antes de haver completado qualquer coisa que experiencie como incompleta em sua vida.

O conceito da Psicologia da Gestalt de figura e fundo é básico para a Gestalt-terapia. Tal conceito permite ao ser percipiente organizar suas percepções numa unidade dinâmica a mais vigorosa possível. Os conceitos, oriundos da Psicologia da Gestalt, principalmente o que se refere a figura e fundo, são importante base para as noções de saúde e de doença da Gestalt-terapia. Além disso, há que se dar atenção a uma série de princípios que regem a percepção, segundo os teóricos da Psicologia da Gestalt: proximidade, similaridade, direção, disposição objetiva, destino comum e pregnância. Também como conceito básico importante é o que trata do aqui e agora em termos de percepção : a experiência da percepção aqui e agora tem mais influência na percepção de um objeto ou de uma forma que a experiência passada com essa mesma figura. Além disso, subjacente a estes e a outros conceitos oriundos da Psicologia da Gestalt está a diferença entre a realidade psíquica (o que eu percebo) e a realidade objetiva (o mundo das coisas) e a impossibilidade de compreender o homem sem uma visão holística do mesmo, que agrupe numa Gestalt (numa configuração) as partes deste homem bem como sua relação com os outros homens e com a natureza. (Martins, 1995, p. 55)



Outra influência colhida pelo casal Perls veio de Adler, cujas concepções “do estilo de vida e do eu criador apoiaram a participação única e ativa de cada indivíduo que - no curso de sua evolução pessoal - entalha a sua natureza específica. (...) Adler relembrou aos psicoterapeutas a importância da superfície da existência. Para a Gestalt-terapia, a superfície da existência é o plano do foco preordenado, a própria essência do homem psicológico. É nesta superfície que existe a consciência, dando à vida sua orientação e significado. Vem de Adler a influência para que, em Gestalt-terapia, acreditemos “que o homem cria a si mesmo”. A maior energia para a realização deste esforço prometeico provém de sua consciência e da aceitação de si mesmo tal qual é.” (Ribeiro, 1985, p. 21)

A orientação humanista da Gestalt-terapia se deve a algumas influências sofridas pelo casal Perls, notadamente de Otto Rank, que acreditava que a primeira luta humana é aquela pela individuação pessoal, o que se tornou também uma das preocupações centrais da Gestalt-terapia. Esta luta se dá através dos esforços que a pessoa faz para integrar seus medos polares de separação e de união, ou seja, a eterna luta humana entre autonomia e heteronomia. Se nos separamos demais, corremos o risco da perda da relação com o outro; se nos unimos demais, o risco é o da perda da individuação.

A idéia da resistência vista como criativa e como facilitadora de uma nova organização pessoal também advém de Rank e é capital na Gestalt-terapia. A resistência não deve ser combatida, mas sim deve ser trazida à consciência do cliente e respeitada como um limite do seu agora.

Outra base importante para a Gestalt-terapia é a filosofia existencial, principalmente através de Heidegger, Martin Buber, Binswanger, Rollo May e Merleau-Ponty.

O ser humano como um ser em relação é uma das contribuições que o movimento existencialista do pós-guerra trouxe à Gestalt-terapia. Além desta, podemos listar outras contribuições dos existencialistas: experiência; autenticidade; confrontação; ação viva e presente.

Para a Gestalt-terapia, isto implicou na ênfase na “singularidade, particularidade, e concretude do homem diante de suas relações e de sua responsabilidade frente a seus projetos e às suas escolhas.” (Barbalho, 1995, p. 2) Metodologicamente, a implicação diz respeito à fundamentação da terapia no relacionamento dialógico e na fenomenologia.

Tratando da influência de Buber no trabalho gestáltico, Cardella (2002, p. 36 e ss) argumenta que Buber acredita que a civilização moderna, ao não valorizar os aspectos relacionais da vida, ampliou o espaço para o narcisismo e para o isolamento do ser humano. Esta relação, o inter-humano, está presente no e dando sentido ao diálogo, entendendo aqui diálogo não somente no que se refere ao discurso, mas ao fundamento relacional da existência humana. Este diálogo acontece “na esfera do ‘entre’, mediante a vivência de duas polaridades, EU-TU e EU-ISSO, as duas atitudes fundamentais do ser humano para relacionar-se com os outros e com o mundo.” (Cardella, 2002, p. 37) Para Buber (1979, passim), o ser humano não pode viver sem relações EU-ISSO, mas não é humano aquele que só vive relações EU-ISSO. Diz o filósofo que a realização do EU se dá na relação com o TU, uma relação de seres em sua totalidade. Assim, a relação EU-TU valoriza o outro na sua alteridade, de modo que a outra pessoa é um fim em si mesma. Na relação EU-ISSO, a outra pessoa é considerada um objeto a partir do qual se atinge um fim.

O encontro EU-TU não pode ser forçado, de maneira que só podemos nos colocar disponíveis para ele; este encontro é algo que acontece, é quase que uma graça, se me é permitido usar de um termo religioso. A existência sadia pode ser caracterizada, dentro deste ponto de vista, pela possibilidade da vivência da dualidade EU-TU e EU-ISSO, uma alternância entre aproximação (relação) e separação, um ritmo de ir e vir, uma alternância de contato e retraimento num compasso sempre muito pessoal.

Ao valorizar o aspecto relacional da existência humana, a Gestalt-terapia se mostra com uma atitude terapêutica e uma visão de ser humano fundamentada na abordagem dialógica, a qual valoriza o ‘entre’, “o verdadeiro lugar e o berço do que acontece entre os homens.” (Buber, cit. em Hycner, 1997, p. 29) Segundo Hycner (1997, p. 29),
aquilo que nos une como seres humanos não é, necessariamente, o visível e o palpável, mas, sim, a dimensão invisível e impalpável ‘entre’ nós. É o espírito humano que permeia qualquer interação nossa. É o ‘fundo numinoso’ que nos envolve e interpenetra. A partir dele emergem nossa singularidade e individualidade, tornando-se figura. É a fonte da cura.



Data de 1927, a mudança de Fritz para Viena e o começo de seu treinamento em Psicanálise. Fritz foi analisando de Wilhelm Reich; teve também Karen Horney como supervisora e terapeuta. Sem dúvida, uma das maiores influências exercidas sobre os Perls veio de Reich. O corpo, os gestos, o olhar, a entonação da voz, passam a fazer parte da terapia. Além disto, há uma preocupação não só com a estrutura da fala, mas também com a forma da fala. Reich reformulou o conceito de libido, definindo-a como excitação, o que torna adequada para explicar a atividade presente no indivíduo, sem ter que apelar para especulações sobre os instintos ou sobre a infância. Através do conceito de couraça muscular do caráter, Reich fez com que “a terapia se devotasse ao afrouxamento desta rigidez corporal restritiva, de forma a liberar a excitação para o comportamento natural que o indivíduo havia enterrado. (...) Esta foi uma perspectiva surpreendentemente simples do homem, que iluminou os aspectos básicos e simples do comportamento: a sensação, o orgasmo, e a riqueza da expressão imediata e não distorcida. (...) A tendência de Reich de ver com simplicidade as ações simples levou a uma fenomenologia mais vigorosa.” (Polster e Polster, 1979, p. 275/276)

Moreno e o Psicodrama, com o conceito de que é mais provável fazer-se descobertas participando-se de uma experiência do que falando sobre ela, é uma de outra das influências recebidas pela Gestalt-terapia.

Em 1942, Fritz escreveu o livro “Ego, Fome e Agressão”, no qual critica a teoria psicanalítica com base em pesquisas sobre percepção e motivação. Neste livro Fritz lança uma importante discordância teórica com relação à psicanálise: a idéia de que a base da agressão e do sadismo está na fase oral e não na fase anal do desenvolvimento infantil. É também neste livro que Perls lança alguns conceitos básicos do que seria, mais tarde, a Gestalt-terapia: a realidade do aqui e agora, o organismo como totalidade, a unidade organismo/meio, a dominância da necessidade emergente e uma reflexão sobre o conceito de agressão, que é entendida como uma força biológica importante para o crescimento. Data de 1951 o lançamento de Gestalt Therapy – Excitement and Growth in Human Personality, escrito por Frederick Perls, Paul Goodman e Ralph Hefferline, livro no qual, pela primeira vez, foi utilizado o termo “Gestalt-terapia”, e que é o livro mais básico da Gestalt-terapia.

Em 1962, Perls entra em contato com o zen-budismo ao passar uns tempos em um mosteiro no Japão e aprende lá alguns conceitos que se incorporam à filosofia da Gestalt-terapia; dentre esses conceitos, quero aqui destacar três: permitir o fluir da experiência, ou seja, seguir o fluxo de awareness; a aceitação do que se é; e a possibilidade de se aprender a lidar com o vazio, o qual é fértil de possibilidades, uma vez que, não raro, é o momento que precede o ato criativo.

Fritz faleceu em 14 de março de 1970, no Canadá. Laura, em 1990, nos EUA. Deixaram como legado uma das mais importantes abordagens da Psicologia e da psicoterapia atual, uma abordagem em constante desenvolvimento e em constante luta por um mundo mais humano e mais simples.



BIBLIOGRAFIA BÁSICA



BARBALHO, M. C. M. Histórico da Gestalt-terapia. in Revista do I Encontro Goiano de Gestalt-terapia, Goiânia, 199

CARDELLA, Beatriz Helena Paranhos. A Construção do Psicoterapeuta: Uma abordagem gestáltica. São Paulo: Summus, 2002

MARTINS, Antonio Elmo de Oliveira. A Concepção de Homem na Gestalt-terapia e suas implicações no processo psicoterápico. Revista do I Encontro Goiano de Gestalt-terapia, março/abril de 1995

PERLS, Frederick S. Ego, Fome e Agressão: Uma revisão da teoria e do método de Freud. São Paulo: Summus, 2002

PERLS, Frederick S., HEFFERLINE, Ralph e GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997

POLSTER, E. & Polster, M. Gestalt Terapia Integrada. Belo Horizonte, Unilivros, 1979

RIBEIRO, J. P. Gestalt-terapia: Refazendo um Caminho. São Paulo, Summus, 1985

RIBEIRO, J. P. Gestalt-terapia de Curta Duração. São Paulo: Summus, 1999

EBP/2006





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[1] Como este texto pretende ser somente de apresentação, não me estenderei sobre esses processos, remetendo o leitor para o livro de Ribeiro.

FONTE:http://www.gestaltsp.com.br/textos/alguns%20aspectos.htm

Gestalt-terapia

A Gestalt-terapia é uma abordagem psicológica que tem seu nascimento oficial marcado pela publicação, em 1951, do livro “Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality”, escrito por Frederick Perls, Ralph Hefferline e Paul Goodman. Este livro foi concebido em dois volumes, um apresentando os conceitos teóricos e o outro, os experimentos e aplicações práticas daqueles conceitos, mas apenas o volume com os conceitos teóricos foi publicado no Brasil em 1997.
Frederick Perls, judeu alemão comumente chamado de Fritz, é visto como o principal criador da Gestalt-terapia, no entanto, muitos a consideram fruto, sobretudo, das discussões e produções do chamado “grupo dos sete”, do qual Fritz fazia parte, que era um grupo de intelectuais não conformistas que questionavam os códigos sociais vigentes na sociedade americana do pós-guerra e buscavam um estilo de vida e de expressão mais autênticos.

Nasceu, então, no início da década de 50, mas foi principalmente a partir da década de 60, com o surgimento dos movimentos de contracultura, que a Gestalt-terapia encontrou espaço para se expandir, principalmente nos EUA, tendo em vista ter se criado o terreno propício para o desenvolvimento das suas idéias tão inovadoras e revolucionárias dentro do cenário psicoterápico da época. Aos poucos, foi se afirmando e exercendo atração em muitas partes do mundo.

Surgiu enquanto uma proposta clínica, mas, atualmente, vem sendo desenvolvida em outros campos de atuação do psicólogo, refletindo e acompanhando as diversas transformações que vêm ocorrendo no mundo ao longo dos tempos, principalmente em relação aos novos paradigmas das ciências, visto que ela oferece uma visão integrada dos fenômenos do Universo, ou seja, uma visão holística da realidade.

Esta visão holística da Gestalt-terapia envolve compreender o homem, a natureza, o planeta, cada ser vivo, cada objeto ou fenômeno do Universo enquanto uma totalidade, ou seja, enquanto uma unidade indivisível, um todo que é muito maior que a soma de suas partes, pois só pode ser compreendido pelas interações entre as partes que o compõem.

Assim, esta visão de que tudo no mundo encontra-se numa relação de interdependência e que, com isso, nada pode ser compreendido isoladamente, nos remete à palavra Gestalt, que, apesar de não encontrar equivalentes em outras línguas, significa estrutura ou configuração e envolve a idéia de totalidade e de organização.

A Gestalt-terapia compreende, então, o homem enquanto uma totalidade, ou seja, um sistema integrado e organizado, uma unidade indivisível corpo/mente, onde não há separação entre as partes que o compõem, mas sim integração, correlação, organização e interdependência.

Dessa forma, não há no homem separação entre o seu sentir, o seu pensar e o seu agir. Sua mente, seu corpo e suas manifestações são partes de um todo, ou seja, são formas diferentes de expressão daquele ser humano e estão, portanto, integrados e contribuindo para a configuração desse todo. Assim, se algo muda em qualquer uma das suas partes, seja um aspecto emocional, mental, físico ou espiritual, o todo é reconfigurado, surge uma nova organização, uma nova gestalt.

Essa visão holística da Gestalt-terapia aponta também para uma compreensão do homem enquanto parte de uma totalidade mais ampla e mais complexa, que representa o contexto no qual ele se encontra inserido. Considerando, então, o homem enquanto um ser-no-mundo, um ser de relação, procura focalizar a totalidade da relação que o indivíduo estabelece com o seu meio.

E esta relação indivíduo-meio é compreendida na Gestalt-terapia a partir das noções de singularidade, de liberdade e de responsabilidade, e a partir da crença no potencial criativo do homem, no seu poder de recuperação e de transformação, na sua tendência ao equilíbrio, à auto-regulação, ao crescimento, na sua capacidade de se construir e reconstruir na sua relação com o mundo, sem desconsiderar, contudo, os limites, as dores, os conflitos, as contradições, que essa construção pode envolver.

Dessa forma, o método que o gestalt-terapeuta se utiliza para abordar a experiência humana implica em compreender o indivíduo como um ser uno, considerando, então, não somente o seu discurso, o seu corpo ou o seu comportamento, mas todas as manifestações de suas dimensões sensoriais, afetivas, intelectuais, corporais, sociais e espirituais, visando alcançar a totalidade e a singularidade da relação do cliente consigo mesmo e com o mundo, visando alcançar o verdadeiro sentido do seu viver.

Assim, o gestalt-terapeuta vai ao encontro da realidade do cliente investigando as suas experiências da forma como elas acontecem e se processam. No entanto, o sentido dessa relação do cliente com seu meio será dado pelo próprio cliente; o terapeuta é apenas um facilitador nesse processo de investigação, de compreensão deste sentido.

Para isso, o gestalt-terapeuta utiliza um método descritivo e não explicativo, ou seja, procura investigar o que está acontecendo com o cliente e como está acontecendo, procurando, através de uma postura interessada, presente e acolhedora, sem “a prioris”, colocando de lado os julgamentos, os conhecimentos anteriores, os pré-conceitos, focalizar aquilo que o cliente manifesta no momento presente, no aqui-agora da relação terapêutica.

Com isso, o terapeuta procura facilitar o processo de auto-conhecimento do cliente, o processo de conscientização sobre si mesmo na relação com o mundo, de forma que ele possa conhecer e experimentar aquilo que ele está podendo ser naquele momento, conhecendo tanto os seus recursos, suas habilidades, como os seus impedimentos, as suas dificuldades, ou seja, tanto aquilo que é saudável quanto o que não é saudável na busca pela satisfação das suas necessidades na relação com o mundo.

Além disso, a Gestalt-terapia acredita numa sabedoria organísmica, ou seja, acredita que quando o indivíduo encontra um ambiente e relações favoráveis, confirmadoras e não judicativas, ele tende naturalmente ao crescimento e desenvolvimento de suas potencialidades, tende a realizar novas e melhores escolhas no seu processo de construção e reconstrução de si mesmo e da sua vida.

A Gestalt-terapia dá, portanto, uma grande ênfase à relação terapêutica, pois ela representa um micro-cosmo onde o cliente, a partir do ambiente favorável, seguro, e confirmador que é fundamental que o terapeuta favoreça, poderá experienciar aquilo que ele é, assim como novas formas de interação, novos sentimentos, novos comportamentos, novas percepções, e, assim, caminhos mais satisfatórios na sua relação com o mundo e consigo mesmo, de modo a conquistar o seu bem-estar e uma melhor qualidade de vida.

FONTE:http://www.aconteser.com.br/oquee.htm

Minha alma se entrega para a tua...

"Minha alma se entrega para a tua...
Porque o contato contigo é total.
Alma de Vênus: formatada para o amor...
Para caber em tuas mãos, boca, espaço.
Meu amor é para todos os teus espaços...
Para todos os teus gostos...
Por isso minha alma se entrega para a tua...
Pois ama todos os meus rostos... E enfrenta todas as minhas luas.
E as exalta... E me celebra... E surpreende.

Minha alma se entrega para a tua
Como um rio se entrega para o mar...
É a intensidade, a força, caminho e libertação.
É a cada dia mais amar e amar...
Amor para os doze meses (que sempre se renovam)
Para as quatro luas e para todas as ruas.
Amor para os montes e vales
Amor para todos os níveis
Sete chakras
Seis sentidos.
Amor para meus olhos, pele, ouvidos.
Amor de silêncio, intuição, gemidos.

Minha alma se entrega para a tua...
Porque a recebes a qualquer hora.
Essa alma minha que se inquieta, se perde...
Se deixa levar por outros ventos... Vaga silenciosa...
Busca outros caminhos... Olha tudo, quer tudo...
E, o TUDO, acaba me reconduzindo de volta a ti...
Porque sem tua presença o tudo é nada, poeira, vazio.
Mais nada.

Minha alma se entrega para a tua...
Não há outro peito que ela se encaixe...
Beijo tua boca até com lama
Porque teu gosto é a metade do meu... E metade é dois.
Não quero outra cama...
Quero que só tu me aches.
Recomeço, renasço... Perco-me...
E me encontro sempre em ti!
Minha alma tem a luz da vida e o fogo da paixão:
Aonde o amor chega e cresce.
E só tua semente floresce em mim.

Minha alma se entrega para a tua...
Porque a tua alma segue a minha
E amar é seguir junto...
E quando acho que estou sozinha
Sem ver teus rastros, teus olhos...
Surpreendo-me carregada por teus braços."

Carolina Salcides

PONTE PARA SER


DESDE CRIANÇA SONHAVA QUE ATRAVESSAVA UMA PONTE...
A NADO!
COMO?
COM O CORPO NELA E OS BRAÇOS REMANDO NA ÁGUA...
E DE OUTRAS FORMAS.
NÃO ERA UMA PONTE IMAGINÁRIA. ELA EXISTIA,EXISTE! HOJE É MONUMENTO!!!
SOU DE TUBARÃO SANTA CATARINA. E A PONTE ERA A HERCÍLIO LUZ...
ESTOU AQUI E AGORA EM TUBARÃO, MAS...
MORO EM FLORIANÓPOLIS NA ILHA DE SANTA CATARINA: "ILHA DA MAGIA".E LÁ EU VIM A ME DAR A LUZ!!!ME MUDEI PARA LÁ NO DIA 17/02/92.PARA AV, PROFESSOR OTHON GAMA D´EÇA NO ED. SOLIMAR.
AGORA, ESTANDO AQUI A PASSEIO RECORDANDO O PASSADO JÁ ILUMINADO! NOS 15 ANOS E MÊSES PASSADOS... PERCEBO... QUE AS CIRCUNSTÂNCIAS QUE NOS LEVAM A ATRAVESSAR PONTES NEM SEMPRE SÃO AS MAIS AGRADÁVEIS, E O QUE LEVAMOS NA BAGAGEM POSSIVELMENTE É UM AMONTOADO DE LIXO E ESCURIDÃO!
MAS FOI UMA BELA TRAVESSIA...
DOLOROSA E INSANA!
AGORA?
TUDO MUITO CLARO E LÍMPIDO...
MAS, QUANTO TATEAR NO NADA ANTECEDEU.
O IMPORTÂNTE?
NUNCA DESISTI!!!
SEMPRE LEVANTEI...
ORVALHO CAI, DIA NUBLADO: SOU FRUTO DA TERRA, ESCREVO EM VERMELHO...MEU SANGUE!
O CÉU ME BATIZA!
OBRIGADA...
SEM FERIDAS!SEM MÁGOAS!
O AMOR ME GUIA...

FERNANDA NEVES DE OLIVEIRA
TUBARÃO 20/09/07

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